Publicidade

Irã pode resistir ‘por semanas ou até meses’ a bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA, diz jornal

Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca enfraquecer o regime iraniano com o bloqueio ostensivo do Estreito de Ormuz, que entrou em vigor na manhã desta segunda-feira, dados revelam que o Irã construiu uma reserva de petróleo fora do Golfo Pérsico, ao longo das últimas semanas, capaz de permitir que a República Islâmica resista à medida “por semanas ou até meses”, segundo publicou o jornal americano Wall Street Journal. A guerra, iniciada com bombardeios americanos e israelenses contra o território iraniano em 28 de fevereiro, favoreceu a exportação de petróleo a partir de Teerã, que tem vendido uma quantidade maior que o normal da commodity para países aliados. Entre eles, destaca-se a China como principal parceira comercial do país persa, onde refinarias independentes absorvem mais de 90% das exportações iranianas.

A decisão do presidente Trump de bloquear todas as remessas iranianas que entram ou saem do Estreito de Ormuz a partir da manhã de ontem estabelece o próximo grande teste na guerra com o Irã: qual lado conseguirá suportar mais prejuízos econômicos: a nova liderança de Teerã ou o próprio Trump?

Como fez com a Venezuela, durante a escalada de pressão que antecedeu a captura do presidente chavista, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, nesta nova etapa da guerra Trump tentará sufocar a principal fonte de renda do Irã: o petróleo, que representa mais de 50% das exportações e praticamente toda a receita do governo iraniano.

O WSJ mostrou que dados da plataforma de análise em tempo real Vortexa mostram que o Irã exportou 1,84 milhão de barris por dia no mês passado. Em fevereiro a República Islâmica chegou a vender 2,15 milhões de barris por dia para o exterior. Esses números representam uma alta de 26% na média das exportações iranianas nos últimos dois meses em relação aos níveis previstos para 2025. Com o fechamento do Estreito sob ameaças de ataque iranianas, Teerã se tornou o único exportador ativo de petróleo da região do Oriente Médio, concentrando a venda de combustível em meio a um período de disparada nos preços da commodity e controlando o fluxo da região, além do acesso de países dependentes do petróleo do Golfo ao combustível.

Visando quebrar essa escalada do lucro iraniano, Trump anunciou o bloqueio da via marítima no último domingo, poucos dias após o início do cessar-fogo firmado entre EUA, Israel e Irã, que incluía a liberação da via navegável pelos iranianos. O objetivo de aumentar a pressão sobre o regime dos aiatolás, no entanto, pode não ser imediato, visto que Teerã parece ter se preparado também para este cenário no conflito.

A quantidade de petróleo iraniano no mar já era alta antes da crise. Teerã começou a aumentar suas exportações antes da ação militar dos EUA e de Israel em junho do ano passado, na qual as forças americanas bombardearam três instalações nucleares iranianas. O Irã tem, na verdade, apenas um comprador para seu petróleo bruto: as “refinarias de pequeno porte” chinesas, que compram mais de 90% de suas exportações. Como Pequim estabelece cotas anuais para a quantidade que essas refinarias podem comprar, elas não poderiam absorver todo o excedente de petróleo imediatamente.

Diante deste cenário, o Irã conta atualmente com cerca de 160 milhões de barris de petróleo já carregados em navios ancorados no oceano, fora do Golfo Pérsico. Parte desse petróleo bruto já está reservada e a caminho de compradores chineses. Mas, em teoria, segundo o Wall Street Journal, Teerã pode manter o abastecimento de seus clientes até meados de julho, com base nos 1,8 milhão de barris diários de petróleo iraniano que a China importa. Trump espera que o bloqueio das receitas petrolíferas force o Irã à mesa de negociações, já Teerã aposta que pode suportar a interrupção do fluxo naval em Ormuz por mais tempo do que a economia global. Considerando seu estoque de petróleo no mar, afirma o WSJ, isso é mais do que mera bravata.

Riscos altos para Trump

A primeira esperança do presidente americano, disseram funcionários do governo no domingo, é forçar o governo a se render aos termos que o vice-presidente JD Vance estabeleceu nas negociações de paz em IslamabadPaquistão — e que o Irã rejeitou, assim como fez nas negociações em Genebra antes do início da guerra em 28 de fevereiro. A lista de termos começa com o acordo do Irã em entregar cada grama de seu estoque de urânio, desmantelar permanentemente sua enorme infraestrutura para produção de combustível nuclear e renunciar às suas reivindicações de regular o tráfego no estreito.

Caso o Irã não se renda, Trump parece ainda nutrir a esperança que expressou na primeira noite da guerra: que uma população iraniana inquieta se levante e derrube o regime autocrático que governa o país desde a revolução de 1979. Mas alcançar esse resultado não é mais fácil do que era há um mês e meio.

Por sua vez, a estratégia do Irã parece ser a de travar o conflito nos mercados globais, onde Teerã descobriu novos poderes. Plenamente conscientes de que perderam a disputa militar nas primeiras cinco semanas, mas que tiveram um desempenho acima do esperado na área da informação e no terror imposto aos seus vizinhos com ataques certeiros de mísseis e drones, os iranianos apostam que a tolerância de Trump à dor política é limitada.

Se nenhum petróleo iraniano passar pelo estreito, os preços poderão continuar subindo com o tempo — algumas empresas dizem que estão se preparando para US$ 175 (R$ 875) por barril. Os iranianos entendem os potenciais efeitos políticos da inflação contínua nos Estados Unidos a menos de sete meses das eleições de meio de mandato.

— Em breve vocês sentirão saudades da gasolina a US$ 4 ou US$ 5 — alertou o principal negociador do Irã e presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, aos consumidores americanos após o fracasso das negociações que liderou com Vance.

Na manhã de segunda-feira, com o bloqueio naval prestes a começar, os mercados não pareciam particularmente alarmados: os preços do petróleo Brent subiram cerca de 6%, para pouco mais de US$ 101 (R$ 505) por barril, mas ainda estavam abaixo do nível anterior ao cessar-fogo declarado na semana passada. Trump, por sua vez, está amenizando sua afirmação anterior de que, com o fim dos tiroteios, os preços da gasolina cairão. Ele disse à Fox News no domingo que os preços “deveriam ficar mais ou menos os mesmos” durante as eleições de meio de mandato e poderiam estar “um pouco mais altos”. Esse é exatamente o temor de muitos candidatos republicanos.

Este é um território desconhecido. Assim como a “quarentena” de Cuba decretada pelo presidente John F. Kennedy em 1962, com o objetivo de impedir que os soviéticos levassem armas nucleares para o solo cubano, é impossível saber de antemão como isso se desenrolará. Naquela época, Kennedy e seus assessores observavam ansiosamente para ver se os soviéticos tentariam “ultrapassar a linha” e arriscar um confronto militar com a Marinha dos EUA ou se recuariam, negociariam e encontrariam uma saída honrosa. O líder soviético da época, Nikita Khrushchev, optou por recuar.

Após o bloqueio a todos os navios que partem ou se destinam aos portos iranianos entrar em vigor on, poderá ficar claro se o novo aiatolá, Mojtaba Khamenei, e a Guarda Revolucionária Islâmica farão a mesma escolha. Mas, sem uma marinha — que o Pentágono e a Casa Branca alegam terem “obliterado”—, o Irã sabe que praticamente não tem chances em um confronto direto.

Para Trump, esta é mais uma inversão de estratégia. Algumas semanas atrás, ele decidiu permitir que o Irã vendesse petróleo que já estava no mar, na esperança de aliviar a escassez de oferta. Mas os efeitos sobre os preços foram mínimos. O presidente americano parecia estar conduzindo uma guerra hesitante, bombardeando o Irã enquanto permitia que o país lucrasse. Além disso, a imposição de pedágios ao tráfego que passa pelo estreito significou que uma nova fonte de receita se abriu para Teerã no momento em que mais precisava.

— A situação atual, em que o Irã consegue negar o uso do estreito a todos, exceto a seus aliados ou àqueles que pagam, é insustentável — disse Richard Haass, ex-alto funcionário republicano de segurança nacional e ex-presidente do Conselho de Relações Exteriores, que esteve entre os primeiros a defender uma estratégia de bloqueio. — Um país enriquece enquanto outros empobrecem. Um bloqueio agrava a pressão econômica sobre o Irã, que já existia antes da guerra e foi exacerbada por ela. Se eles querem vender seu petróleo, precisam reabrir o estreito para todos.

O teste dessa estratégia pode muito bem ser a reação dos maiores clientes do Irã. Haass defende a combinação do bloqueio com uma estratégia diplomática para pressionar a China, a Índia, o Paquistão e a Turquia — todos grandes clientes do Irã — a cederem às exigências dos EUA e retomarem o fluxo de petróleo. Mas não está claro se eles o farão, especialmente se a China enxergar uma oportunidade de lucrar a longo prazo com o confronto.

O especialista também afirmou que “deveríamos associar a ameaça ou a realidade de um bloqueio a uma proposta para estabelecer uma nova autoridade de governança para o estreito que inclua o Irã”, dando-lhe voz — mas não controle — sobre a administração da hidrovia.

Pode funcionar. Mas também existe a possibilidade de que a reação do Irã seja retomar os ataques às instalações de energia nos Emirados Árabes Unidos, no Kuwait e talvez até na Arábia Saudita. Nesse cenário, o Irã estaria essencialmente dizendo que, se não puder enviar petróleo, seus vizinhos árabes também não poderão.

Como em muitos outros aspectos desta guerra, houve confusão no domingo sobre o que, exatamente, estava sujeito ao bloqueio. A publicação de Trump nas redes sociais declarou um bloqueio “completo” a todo o tráfego de entrada e saída do estreito. Mas, conforme descrito em um comunicado à imprensa divulgado no domingo pelo Comando Central dos EUA (Centcom), o bloqueio se aplica apenas a navios que vão ou vêm de portos iranianos. Cargas de outros estados do Golfo poderão passar, desde que estejam dispostas a correr o risco de atingir minas ou serem atacadas por lanchas rápidas ou drones iranianos. Também não ficou claro como os Estados Unidos determinariam quais navios pagaram pedágio aos iranianos.

O estreito já foi fechado antes, é claro, mas a História não oferece muitas orientações que se encaixem na situação atual. Como Haass, juntamente com os historiadores Niall Ferguson e Philip Zelikow, observaram no The Free Press na semana passada, os portugueses assumiram o controle do estreito pela primeira vez há 519 anos e cobraram pedágio. Foram expulsos pelas forças persas e britânicas. Meio milênio depois, os portugueses e os britânicos deixaram claro que o ataque ao Irã, mesmo em nome de impedir que o país se aproximasse de uma arma nuclear, foi mal concebido.

No início da década de 1950, o Reino Unido bloqueou o estreito depois que o então primeiro-ministro do Irã, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a indústria petrolífera do país. Ele foi deposto em um golpe de Estado que contou com o apoio parcial da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), uma intervenção secreta que os iranianos ressentem até hoje e que a história não tratou com benevolência. Houve também interrupções episódicas durante a guerra Irã-Iraque na década de 1980.

Mas nenhuma dessas experiências se compara de perto ao complexo confronto que está se desenrolando atualmente. Se o bloqueio for de curta duração e acabar com a capacidade do Irã de extorquir a economia global, a aposta de Trump poderá parecer uma astuta inversão de papéis. E se a liderança iraniana ceder às suas exigências, isso poderá ratificar a conclusão do presidente dos EUA de que a nova liderança é mais “razoável” do que a anterior.

Se o bloqueio se prolongar, porém, o líder americano corre o risco de parecer, mais uma vez, como alguém que não previu os problemas futuros, antecipando o que poderia dar errado com um ataque a um Irã aparentemente enfraquecido. A guerra que ele pensava que duraria apenas alguns dias está entrando em sua sétima semana. E para a economia global, a parte mais difícil ainda está longe de terminar.

(Com New York Times)

Publicidade
Publicidade