
O governo entrou na reta final das discussões do novo programa para renegociação de dívidas, diante do alto comprometimento de renda e do endividamento das famílias, uma preocupação do presidente Lula em ano eleitoral. Uma das alternativas em estudo, antecipada pelo GLOBO e confirmada ontem pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, é permitir o uso do FGTS para quitar os débitos.
A equipe econômica discute ao menos dois focos de ação prioritária. Um é para a população de baixa renda com dívidas em atraso entre 60 e 360 dias, que seria estimulada a renegociar seus débitos com desconto e refinanciamento, em uma espécie de novo Desenrola, programa criado em 2023 e que já se encerrou, mas num formato simplificado.

O segundo foco é para pessoas com dívidas que estão pagando em dia, mas com alto comprometimento de renda com o pagamento de parcelas. Elas seriam incentivadas a migrar para linhas de crédito mais baratas.
Famílias têm renda comprometida
A avaliação do governo é que há uma necessidade de reduzir o comprometimento de renda, que tem aplacado a sensação de bem-estar nas famílias, mesmo nas que têm integrantes empregados e que estão experimentando alta na renda nos últimos anos.
Em março, 80,4% das famílias tinham alguma dívida a vencer — inadimplentes ou não —, superando os 80,2% de fevereiro, como antecipou o blog da colunista do GLOBO Míriam Leitão. É o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), iniciada em 2010.
Veja a seguir o relato de “enrolados” ouvidos pelo GLOBO sobre como perderam o controle de suas contas.
‘Era uma conta cobrindo a outra’
Imprevistos ligados à saúde levaram Gleice Aguiar, de 37 anos, ao endividamento. Ela começou a enfrentar dificuldades financeiras em 2019, quando contraiu uma bactéria na perna e teve de largar o emprego informal numa papelaria e bicos em bufês nos fins de semana.
A situação piorou em 2023, quando ela se separou do marido e teve de assumir sozinha a criação de dois filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
— Precisei recorrer a empréstimos para pagar minhas dívidas. Era uma conta cobrindo a outra — conta. — Eu não tinha rede de apoio para deixar meus filhos e poder trabalhar. Com isso as dívidas foram aumentando, e eu acabava fazendo mais empréstimos e usando o cartão de crédito. Cheguei a dever luz, aluguel e água. Estava sem condições de manter meus filhos.
Na época, Gleice morava em Brasília. Em março de 2025, ela se mudou para o interior do Ceará, onde tenta se reestruturar com menor custo de vida. Ela trabalha como confeiteira em uma padaria durante a semana, tem um negócio próprio de presentes personalizados e ainda faz um curso para se tornar comissária na aviação civil. Mas não dorme sossegada.
— Ainda estou muito endividada. Devo a terceiros e aos bancos. Somando tudo, minhas dívidas chegam perto de R$ 50 mil. Os remédios dos meus filhos custam em torno de R$ 800, e hoje arco sozinha com todas as despesas. Estou no modo sobrevivência — conta Gleice, que tentou aderir ao Desenrola, mas não passou da interface digital. — Quando eu tentava, aparecia que a opção não estava mais disponível.
‘Comecei de forma inofensiva em apostas’
A designer, Lorraine Cristina, de 25 anos, começou a ter problemas financeiros ainda durante a pandemia, quando a empresa em que trabalhava fechou e ela não conseguiu mais pagar o cartão de crédito.
Com os juros do cartão se acumulando, acabou sujando o nome. No fim de 2024, sua situação piorou: ela ficou viciada em apostas on-line e começou a fazer empréstimos em bancos para sustentar o jogo.
— Fiquei um ano viciada em apostas e fiz dívidas durante todo esse período que chegaram em torno de R$ 5.600. Comecei de forma inofensiva, achando que era um joguinho, mas quando fui ver, já estava com dívidas acumuladas, sem dinheiro e com a vida estagnada — disse a jovem, que, na época, ainda estava com dívidas da pandemia. — Hoje, graças a Deus, eu estou me reestruturando, sem vícios e pagando o que ficou de consequência das minhas escolhas.
‘O sistema financeiro engole a gente’
O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma de suas muitas dívidas por meio do Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para outros débitos e ele segue inadimplente e já sem acesso a crédito.
— O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam as chances de pagamento da dívida real. Hoje, devo cerca de R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Hoje tenho que comprar tudo à vista, ou pedir cartão emprestado a familiares — diz Fonseca, que vive no Rio.
Ele aparenta se surpreender com a escalada dos juros e gostaria de ter desconto e repactuação para todas as dívidas que ainda tem em aberto:
— Eu tinha uma dívida de dois cartões de crédito de R$ 6 mil com juros, o valor original era cerca de R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$ 180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas as dívidas porque tinha um período determinado que era considerado.
Fonseca diz ter problemas com dívidas desde que começou a trabalhar, aos 18 anos, e teve acesso ao crédito:
— Eu me deixei levar. Comecei a usar cartões em grande quantidade, limites especiais em bancos, linhas de crédito e financiamento. Comecei viver uma sensação de ter uma renda dez vez maior que a que eu realmente eu tinha.
‘Trabalho, ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar’
O bombeiro civil Yan de Paula Teixeira, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também começou a usar cartões de crédito cedo, aos 18 anos. Hoje, com 26 e renda mensal de R$ 1.820, ele chega a comprometer até R$ 1.500 por mês com três cartões diferentes e admite que, em alguns meses, recorre ao parcelamento das faturas com juros, mas não fica inadimplente:
— Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa, e meu medo é virar uma bola de neve.
Apesar de satisfeito com o emprego formal que lhe dá uma renda fixa, ele diz que essa dinâmica tem frustrado seus planos de comprar um carro e sair da casa dos pais. Sente que o dinheiro “desaparece” de forma menos perceptível usando cada vez menos cédulas e mais o cartão.
— No começo, o cartão era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo — conta.
O jovem diz ter dificuldade de conter impulsos e reduzir o consumo de roupas, acessórios e passeios no crédito para poupar:
— Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora parece que vai dar para pagar depois. Você faz um Pix, passa o cartão, parcela… Não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando você vê, já foi quase o salário todo. Era pra eu conseguir guardar dinheiro, só que nunca sobra. Eu trabalho, ganho meu dinheiro, mas não consigo sair do lugar. Quero comprar um carro, penso em financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão pra pagar.
‘A prioridade é pagar meu sogro e as dívidas do meu marido’
A designer Taisa Alcantara, de 28 anos, diz que as dívidas que acumulou no cartão viraram uma “bola de neve” sem que ela percebesse logo. Começou quando se mudou do Rio para São Paulo, em 2022, com o namorado recém-convertido em marido.
— A gente resolveu tentar a vida lá sem uma reserva financeira. Fui sem emprego e, nesse meio tempo, meu cartão estourou. Meu marido também já estava com o nome sujo — conta a jovem, que devia R$ 2.614 em junho de 2023 no cartão e, em fevereiro do ano passado, viu a soma alcançar R$ 26.585 em quase dois anos de inadimplência.
















