
Os investimentos chineses no Brasil saltaram 45% no ano passado ante 2024, para US$ 6,1 bilhões, o maior montante desde 2017, segundo levantamento anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que será divulgado nesta quinta-feira. O estudo mapeou 52 projetos ou transações de investimento, recorde da série histórica iniciada em 2007.
O Brasil foi o principal destino dos investimentos da China no exterior em 2025, segundo dados do China Global Investment Tracker, monitor do think tank americano American Enterprise Institute (AEI), compilados pelo CEBC.
Segundo o diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC, Tulio Cariello, o destaque do Brasil se deve a uma combinação de riqueza de recursos naturais, com grande mercado consumidor e base industrial já estabelecida.
Tanto que os destaques nos investimentos foram os setores elétrico, de mineração e automotivo. Agregando por outra ótica, 31 projetos, ou 60% do total, foram associados em redução de emissões de carbono.
Setor elétrico e de mineração saem na frente
No levantamento do CEBC, o setor elétrico respondeu por 29,5% dos investimentos no Brasil no ano passado, com US$ 1,79 bilhão.
A CPFL — que atua em geração, transmissão e distribuição de eletricidade e é controlada, desde 2017, pela State Grid Corporation of China, gigante do setor elétrico — foi a principal investidora de 2025, segundo o estudo.
Ano passado, a companhia investiu R$ 6,1 bilhões e prevê aportar mais R$ 6,5 bilhões este ano, conforme apresentação institucional de dezembro último. O plano de investimentos 2026-2030 da CPFL soma R$ 31,1 bilhões.
Na mineração, o investimento triplicou ante 2024, segundo o CEBC, com destaque para a estratégia das mineradoras chinesas de comprar projetos em funcionamento, como as minas de ouro da canadense Equinox Gold em Minas, Bahia e Maranhão — a CMOC pagará US$ 1 bilhão por elas — e a operação de níquel da Anglo American — que ficará com a MMG, mineradora australiana controlada pela China Minmetals, por US$ 500 milhões.
Competição e marketing na indústria automotiva
Na indústria automotiva, foram US$ 965 milhões em investimentos chineses, com destaque para a fabricação de carros eletrificados, tecnologia na qual as marcas chinesas se destacam. É uma alta de 66% ante 2024, embora “o montante final possa ser superior, uma vez que houve investimentos cujo valor não foi revelado”, diz o relatório do estudo.
Além de ser o sexto maior do mundo em venda de veículos leves, segundo a consultoria italiana Focus2Move, o mercado brasileiro vem aderindo à eletrificação. Até abril, foram vendidos 139 mil carros “eletrificados” (100% elétricos ou híbridos), salto de 97% ante o primeiro quadrimestre de 2025, de acordo com a Fenabrave, entidade que representa as concessionárias.
Os destaques do ano passado foram as inaugurações da fábrica da BYD, na Bahia, e da GWM, em São Paulo. Além disso, a Geely investiu numa participação acionária de 26,4% da subsidiária brasileira da Renault, o que permitirá fabricar seus carros na fábrica da montadora francesa no Paraná.

O relatório do CEBC ressalta também o “notável” investimento das marcas chineses em propaganda, com foco em “nacionalizar” seus produtos e suas imagens. A BYD até entrou numa disputa publicitária com a Volkswagen ao anunciar que assumiu a liderança de vendas no país em abril.
Diversificação com sofisticação
Segundo Cariello, o apetite pelo mercado brasileiro também impulsiona uma diversificação, com espaço para projetos menores na indústria manufatureira — a chinesa Vivo Mobile anunciou que fabricará celulares na Zona Franca de Manaus —, nos serviços de tecnologia, como os aplicativos de entregas — as chinesas 99 e Keeta estão em meio a uma disputa bilionária com o iFood — e no varejo de alimentação — a rede de fast-food Mixue anunciou aporte de R$ 3,2 bilhões para se instalar no país.
A diversificação de setores investidos vem acompanhada de uma sofisticação, disse o advogado Christiano Rehder, sócio da área de Societário e Fusões e Aquisição do escritório Lefosse, ao relatar contatos recentes de investidores chineses.
As empresas chinesas têm, cada vez mais, contratado serviços locais de assessoria jurídica e financeira, adaptando-se rapidamente às particularidades nacionais.
— Eles não querem mais ser considerados azarões. Querem estar na frente, querem ser considerados investidores de primeiro nível, bem relacionados e bem amparados com assessores jurídicos e financeiros de primeira linha. Há uma disposição para passarem a ser vistos como alguém que não é um aventureiro do Oriente — afirmou Rehder.
Brasil se mantém no topo
A diversificação dos investimentos também com projetos menores ajuda a manter o Brasil entre os maiores destinos do capital chinês. Segundo o estudo do CEBC, o país está entre os cinco maiores destinos desde 2021, mesmo após após uma mudança de composição.
Quando começou sua expansão mundo afora, a política de investimentos da China priorizava os grandes mercados consumidores dos países desenvolvidos. Mais recentemente, passou a focar nos emergentes.
— A China está tendo mais dificuldade para investir em países que eram particularmente atrativos até dez anos atrás. Os investimentos na Europa e nos EUA, mesmo que cresçam eventualmente, já não estão mais naquele nível que era antigamente — disse Cariello.
Nesse ponto, o cenário geopolítico pesa. A relação bilateral entre o Brasil-China se aprofunda à medida que os EUA vão adotando uma posição mais isolacionista sob o comando de Donald Trump. O tarifaço derrubou as exportações do Brasil para os EUA, mas as vendas para a China seguiram batendo recorde.
— O Brasil não tem nenhum tipo de contencioso sério com a China. Estamos distantes desses grandes conflitos, no Oriente Médio e no Leste Europeu. É uma combinação de fatores que favorece muito a entrada do investimento e já tem empresas investindo aqui há muito tempo, que conhecem o mercado — completou Cariello.
Já Marco Aurélio Alves de Mendonça, técnico da área internacional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), chamou a atenção para a complementaridade das economias do Brasil e da China. Os chineses precisam das matérias-primas minerais e agrícolas produzidas no país, assim como os produtores brasileiros precisam da demanda do gigante asiático.
Para Mendonça, essa complementariedade acaba pesando mais do que postura de Trump — que pode ter efeitos de curto prazo no comércio ou nos discursos diplomáticos — e dá contornos estratégicos e de estado à relação bilateral Brasil-China. Nesse contexto, os investimentos são mais pensados, com foco no médio prazo.
— Eles precisam muito da gente e a gente deles. A relação está solidificada — resumiu o pesquisador do Ipea.
















