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Master: O primeiro pedido do ex-presidente do BRB ao STF para negociar delação

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa — Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, preso no último dia 16 na quarta fase da Operação Compliance Zero, pedirá transferência do Complexo Penitenciário da Papuda para a Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília. O principal argumento a ser apresentado para o relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, é a intenção de delatar o que sabe sobre o esquema.

    Como antecipamos no blog, Costa dispensou seu então advogado, Cléber Lopes, e contratou os criminalistas Eugênio Aragão e Davi Tangerino para conduzir sua defesa de olho na negociação de uma colaboração premiada. A estratégia será capitaneada por Aragão, ex-ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff.

    O ex-dirigente do banco estatal se reunirá com os novos advogados já nesta quinta-feira (23). O movimento repete o roteiro do ex-CEO do Master, Daniel Vorcaro, que estava preso na Penitenciária Federal de Brasília e teve a transferência para as instalações da PF autorizada por Mendonça após acenar para a possibilidade de delatar. O banqueiro também trocou de advogado e contratou José Luiz Oliveira Lima, especializado em delações.

      A defesa de Costa argumentará que a proposta de colaboração não poderá ser discutida e negociada nas instalações da Papuda e vai demandar condições análogas às de Vorcaro.

      No caso de Costa, porém, há um motivo extra para o pedido de transferência: o fato de a penitenciária ser administrada pelo governo do Distrito Federal, o que na avaliação dos defensores pode ser um problema já que em Brasília é dado como certo que o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) será um dos protagonistas de uma eventual delação de Paulo Henrique Costa.

      Pela mesma razão, a família do executivo dispensou Cléber Lopes, que o representava até a última quarta-feira. Lopes também advoga para o ex-governador há bastante tempo.

      Influente na capital federal e no meio jurídico, Ibaneis deixou o cargo no fim de março para concorrer ao Senado Federal. Sua vice, Celina Leão (PP), assumiu o comando do Palácio do Buriti. Ela tem buscado se distanciar do escândalo, mas a vinculação com a gestão do emedebista é suficiente para a defesa de Costa trabalhar pela saída do executivo da Papuda.

      O ex-chefe do BRB e seus advogados têm motivos para ter pressa nessa negociação.

      De acordo com fontes que acompanham de perto os desdobramentos da investigação, Costa precisa “passar à frente” de Vorcaro porque sabe que, se o dono do Master fechar o seu acordo antes, será ainda mais difícil para ele oferecer informações relevantes o suficiente para obter um acordo de delação premiada com a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

      O papel do ex-governador do DF no caso Master é um dos pontos a serem esclarecidos na investigação da Polícia Federal, bem como as transações milionárias entre seu escritório de advocacia e fundos e gestoras ligadas ao ecossistema do banco de Daniel Vorcaro. O emedebista tem negado qualquer irregularidade em seus atos no governo.

      As eventuais colaborações premiadas de Vorcaro e Costa têm o potencial de destrinchar a operação no Buriti para que o BRB adquirisse R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas do Master em meio às tratativas para comprá-lo.

      O investimento foi defendido publicamente por Ibaneis em diferentes ocasiões sob o argumento de que o negócio, uma vez confirmado, renderia dividendos bilionários e daria ao banco estatal de Brasília alcance nacional. Dizia que o negócio não era um risco e sim uma “oportunidade”.

      “O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou o governador em agosto de 2025 ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a compra da instituição privada.

      Paulo Henrique Costa é acusado pela Polícia Federal de corrupção passiva e lavagem de dinheiro de propinas recebidas do Banco Master para aprovar as compras de carteiras fraudulentas. Os investigadores identificaram seis imóveis que teriam sido recebidos como propina, quatro em São Paulo e dois em Brasília, avaliados em R$ 146 milhões no total.

      De acordo com a PF, R$ 74,6 milhões foram efetivamente pagos – o pagamento total não teria sido efetuado porque Vorcaro teria tido conhecimento da investigação sigilosa aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) para apurar as transações.

      Na decisão que levou Paulo Henrique Costa à cadeia, Mendonça apontou que o ex-presidente do BRB “atuava como um verdadeiro mandatário” de Vorcaro dentro do banco estatal de Brasília, em troca de receber os imóveis.

      Segundo os investigadores, os imóveis de luxo e altíssimo padrão eram escolhidos segundo critérios pessoais e familiares – e tratados diretamente por Paulo Henrique Costa com Vorcaro e o advogado Daniel Monteiro, também preso por determinação do ministro do Supremo.

      Paulo Henrique “visitava ou validava os imóveis selecionados”, cobrava o andamento das aquisições e chegou a “demonstrar preocupação com a falta de documentação formal do arranjo”, descreveu Mendonça na decisão de 32 páginas que determinou a prisão de Monteiro e do ex-presidente do BRB.

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