
A menopausa é um marco natural na vida feminina, caracterizada pela interrupção definitiva da menstruação após 12 meses consecutivos sem ciclos menstruais. Mais do que o fim da fase reprodutiva, esse período representa uma transição biológica complexa, que envolve mudanças hormonais, metabólicas, emocionais e físicas.
“A menopausa representa uma transição biológica importante, resultado da redução progressiva da produção de hormônios ovarianos, especialmente o estrogênio. Esse processo, que geralmente ocorre entre os 45 e 55 anos, faz parte do climatério e desencadeia uma série de mudanças no organismo feminino, com impacto não apenas reprodutivo, mas também metabólico, emocional e, de forma bastante significativa, na saúde feminina”, explica Nélio Veiga Junior, ginecologista pós-doutorando em saúde sexual e reprodutiva, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério.
Durante esse período, diversas alterações podem surgir, afetando não apenas a saúde física, mas também a autoestima e a qualidade de vida. O Dr. Nélio detalha os principais sintomas ginecológicos e as estratégias de cuidado que ajudam a atravessar essa fase com mais conforto.
Síndrome geniturinária
Entre os problemas mais comuns, está a chamada síndrome geniturinária, resultado direto da queda de estrogênio.
“A diminuição do estrogênio torna o tecido vaginal mais fino, menos elástico e menos lubrificado, levando à secura vaginal, ardência, infecção urinária de repetição, coceira e dor durante a relação sexual, condição conhecida como dispareunia. Essas mudanças podem afetar diretamente a qualidade de vida e a saúde sexual da mulher, muitas vezes impactando também sua autoestima e relações afetivas”, diz o especialista.
O tratamento deve ser individualizado. “A terapia com estrogênio local (cremes, comprimidos ou anéis vaginais) é considerada padrão-ouro para restaurar a mucosa vaginal, melhorar a lubrificação e reduzir sintomas como secura e dor. Para mulheres que não podem ou não desejam usar hormônios, hidratantes vaginais de uso regular e lubrificantes durante a relação são boas alternativas. Em alguns casos, tecnologias como laser vaginal ou radiofrequência podem ser indicadas, embora ainda com evidências em evolução”, completa.
Alterações urinárias
A proximidade anatômica entre os sistemas genital e urinário faz com que a atrofia dos tecidos também provoque mudanças na função urinária. Segundo o Dr. Nélio, é comum o aumento da frequência urinária, sensação de urgência, incontinência e maior predisposição a infecções recorrentes.
“As queixas urinárias podem ser manejadas com uma combinação de estratégias. A fisioterapia do assoalho pélvico é uma das principais abordagens, ajudando no controle da incontinência e na melhora da função muscular. O uso de estrogênio vaginal contribui para a saúde da uretra e da bexiga. Em casos específicos, medicamentos para controle da bexiga hiperativa ou até procedimentos minimamente invasivos podem ser considerados”, detalha.
Infecções vaginais
O desequilíbrio do pH vaginal provocado pela redução hormonal também favorece infecções, como candidíase e vaginose bacteriana. “Com a queda do estrogênio, há redução dos lactobacilos, bactérias ‘protetoras’ da flora vaginal, e diminuição do glicogênio nas células vaginais, o que torna o ambiente menos ácido e mais suscetível à proliferação de microrganismos. Como consequência, podem surgir sintomas como corrimento, odor desagradável, coceira e ardência, além de maior recorrência dos quadros, especialmente em mulheres predispostas. O diagnóstico correto é essencial, já que cada tipo de infecção exige tratamento específico e, em alguns casos, pode ser necessário associar terapias que ajudem a restaurar o equilíbrio da microbiota vaginal”, afirma.
“Antifúngicos são indicados nos casos de candidíase, enquanto antibióticos específicos tratam a vaginose bacteriana. Além disso, estratégias para restaurar o equilíbrio da microbiota vaginal ganham espaço, como o uso de probióticos e, em alguns casos, estrogênio local para melhorar o ambiente vaginal. Orientações comportamentais também fazem diferença, como evitar duchas vaginais e produtos irritantes, controle da disbiose e manutenção de hábito intestinal regular”, acrescenta o ginecologista.
Sangramentos uterinos irregulares
Durante o climatério, alterações no ciclo menstrual podem levar a sangramentos irregulares, com variações no fluxo e na duração. “No entanto, após a menopausa já estabelecida, qualquer sangramento deve ser encarado como um sinal de alerta e investigado, pois pode estar associado a condições mais graves” alerta o Dr. Nélio.
“Durante o climatério, esses sangramentos podem ser controlados com terapias hormonais, como anticoncepcionais de baixa dose ou terapia hormonal, dependendo do perfil da paciente. Após a menopausa, qualquer sangramento deve ser investigado com exames como ultrassonografia transvaginal e, se necessário, biópsia endometrial. O tratamento varia conforme a causa, podendo incluir desde ajuste hormonal até intervenções cirúrgicas”, esclarece.
Disfunção sexual
A menopausa também pode afetar a vida sexual, não apenas pela secura vaginal, mas por alterações hormonais e emocionais que interferem no desejo e no prazer. “Apesar de comuns, esses sintomas não devem ser naturalizados como algo que a mulher precisa simplesmente aceitar”, observa o especialista.
A abordagem é multifatorial: “O uso de estrogênio vaginal ajuda a reduzir dor e desconforto, enquanto lubrificantes facilitam a relação. Em alguns casos, pode-se considerar terapia hormonal sistêmica, quando indicada. Além disso, acompanhamento com terapia sexual ou psicológica pode ser essencial, já que fatores emocionais, autoestima e qualidade do relacionamento também influenciam diretamente a resposta sexual nessa fase.”
O Dr. Nélio reforça que o acompanhamento médico é fundamental para garantir conforto, bem-estar e qualidade de vida durante a menopausa. “A atenção aos sinais do corpo e o cuidado individualizado permitem que essa fase de transição seja vivida de forma mais saudável e positiva”, conclui.
















