Publicidade

A irritação de Vorcaro com site de esquerda: ‘Vão entrar no processo das fake news’

O executivo Daniel Vorcaro — Foto: Reprodução

Trocas de mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que Daniel Vorcaro ameaçou colocar no “processo [das] fake news” o site de esquerda Diário do Centro do Mundo (DCM), após a publicação de reportagens consideradas negativas para a sua imagem. Os diálogos obtidos pelos investigadores, de outubro de 2024, ocorreram em meio à negociação de uma suposta “parceria” entre o veículo com o Banco Master.

Diálogos entre Vorcaro e um funcionário a quem ele chamava de Sicário – que constam da representação da PF e foram obtidos pela equipe da coluna – mostram que, ao ficar irritado com uma reportagem do DCM sobre operações de crédito consignado do Master, o banqueiro escreveu: “Estão achando que estão mexendo com menino. Agora não quero lais [mais]. Vao [Vão] entrar no processo fake news. Vou fechsr [fechar] esse site. Manda deixar a matéria. Esses otarios [otários]”.

O trecho do relatório da PF obtido pelo blog não se debruça sobre a análise desse ponto, mas as mensagens sugerem que Vorcaro faz referência ao controverso inquérito das fake news, comandado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes desde a sua criação, em março de 2019.

Conforme revelou o blog, o escritório da mulher do ministro tinha um contrato de prestação de serviços com o banco Master que previa o pagamento de R$ 130 milhões entre janeiro de 2024 e dezembro de 2027, para atuar na defesa dos interesses da instituição e de Daniel Vorcaro junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Cade e ao Congresso Nacional.

O contrato só foi interrompido com a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro, mas até hoje só foi localizada uma ação em que Viviane efetivamente atuou em favor do banco, uma queixa-crime que ela acabou perdendo em dezembro do ano passado. Nem o ministro nem sua mulher nunca explicaram quais serviços foram efetivamente prestados.

Na época das mensagens de Vorcaro obtidas pela PF, o contrato de Viviane com o Master estava em vigor havia quase dez meses – e o banqueiro se gabava das suas conexões políticas nos três poderes.

Conforme informou o blog, Vorcaro traçou com o comparsa Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, uma estratégia para se blindar de notícias negativas publicadas na imprensa.

Mensagens obtidas pelo blog mostram que Vorcaro propôs uma “parceria” de R$ 50 mil com o Diário do Centro do Mundo, que envolveria até mesmo a retirada de matérias consideradas ruins para a imagem do dono do Banco Master.

Mourão foi preso pela Polícia Federal nesta quarta-feira (4) e morreu após tentar cometer suicídio na cela da superintendência da PF de Minas Gerais.

Em um trecho da decisão de André Mendonça que autorizou a prisão de Vorcaro, Sicário e outros dois comparsas, o ministro reproduz um diálogo do banqueiro com o “chefe de segurança” em que ele explica como aplicava o milhão recebido.

“Eu divido entre a turma. Mando para eles. 400 divido entre 6. Os meninos mando 75 pra cada, o meu. O DCM e mais dois editores. É este o mensal”, diz a conversa de WhatsApp. O diálogo sugere que havia algum tipo de pagamento periódico ao site de notícias.

Relação tumultuada

Trechos da representação sigilosa da PF a que a equipe da coluna teve acesso, porém, mostram que a relação entre o banqueiro e o DCM era tumultuada.

    Em 12 de outubro, um dia depois de falar em oferecer R$ 50 mil ao DCM pela “parceria”, Vorcaro encaminha a Mourão uma matéria publicada no Diário do Centro do Mundo, considerada negativa pelo banqueiro, intitulada “Altas taxas de juros e reclamações assombram operações consignadas do Banco Master”.

    “Esses caras não são serios [sérios]. Vamos pra cima”, escreve Vorcaro.

    Mourão escreve a Vorcaro, encaminhando mensagem de um interlocutor desconhecido: “Ele disse que não é ele que tá postando isso, tô vendo se ele passa o nome do escritor da matéria”. O trecho do relatório da PF obtido pelo blog não identifica a autoria da mensagem original, nem a quem se refere.

    O banqueiro então acrescenta: “Vamos por PF nesses caras. Não são serios [sérios]. Eu fazendo proposta parceria. Isso não existe.”

    Mourão responde: “Eles estavam pedindo o dobro do valor que oferecemos. Tem alguém pagando para os editores publicarem matarias [matérias] sua e do banco”.

    É nesse momento que Vorcaro afirma: “Estão achando que estão mexendo com menino. Agora não quero lais [mais]. Vao [Vão] entrar no processo fake news. Vou fechsr [fechar] esse site. Manda deixar a matéria. Esses otarios [otários]”.

    Na representação que subsidiou a operação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, a PF diz que os diálogos revelam que Vorcaro “não apenas reagia de forma agressiva às publicações negativas, mas também demonstrava disposição para pagar pela retirada das matérias”.

    “As mensagens mostram Felipe Mourão negociando diretamente com o portal e garantindo que o conteúdo seria removido, evidenciando um esforço coordenado para controlar e suprimir informações desfavoráveis”.

    De acordo com a PF, Mourão recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro em troca de serviços comparados por investigadores aos de uma “milícia”, que incluíam invasões hacker nos sistemas da Polícia Federal (PF) e até do FBI e o monitoramento e planejamento de ataques contra pessoas que tinham contrariado os interesses de Vorcaro.

    Publicidade
    Publicidade