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Advogados presos a serviço de facções na Bahia: O que se sabe e o que ainda falta esclarecer

Câmeras registraram encontros em que advogados passavam instruções sobre tráfico de drogas e planejamento de crimes violentos  |   Bnews - Divulgação Divulgação / MP-BA

Dez advogados foram alvos da Operação “Sintonia de Gravata”, deflagrada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), com apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), na última sexta-feira (3), sob suspeita de atuar como elo entre líderes de facções criminosas presos e integrantes em liberdade.

As investigações indicam que os profissionais usavam o parlatório do Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, a 180 quilômetros de Salvador, para transmitir ordens ligadas ao tráfico de drogas, armas e planejamento de crimes como homicídios e sequestros.

Quem são os advogados investigados
As autoridades divulgaram a identidade dos 10 advogados alvos da operação e, em alguns casos, indicaram para quais integrantes de facções eles atuariam:

  • Maria Tereza Novaes Martins — atuaria em favor de Victor de Freitas Silva, o “Da Jega”, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho (CV) em Feira de Santana.
  • Izabela da Silva de Oliveira — atuaria em favor de Averaldo Ferreira da Silva Filho, o “Averaldinho”, integrante e um dos chefes do Bonde do Maluco (BDM), com atuação em Salvador.
  • Luan Mascarenhas de Souza — atuaria em favor de Francisleno de Jesus Nunes; os crimes não foram detalhados.
  • Ícaro Cardoso Viana — atuaria em favor de Gleidson Bomfim do Nascimento, Ademilton Mercês Alves e Décio Douglas Silva Oliveira, conhecido como “Vaqueiro”, um dos chefes do BDM.
  • Luã Santos da Costa — atuaria em favor de Leandro da Conceição Santos Fonseca, o “Léo Gringo”, apontado como um dos chefes do BDM na Bahia, e de Wesley Willian Alves dos Santos, cujos crimes não foram detalhados.
  • Fernanda Oliveira Borges — atuaria em favor de Marlos Araújo Souza Junior, conhecido como “Bolão”, “CRM” ou “JR”, vinculado ao Terceiro Comando Puro (TCP), com atuação em Senhor do Bonfim. Ela foi a primeira advogada trans na Bahia.
  • Tamires Felix Alves Silva — atuaria em favor de Décio Douglas Silva Oliveira, o “Vaqueiro”, do BDM.
  • Maria Mariana Batista de Oliveira — atuaria em favor de Fabio Santana Oliveira, o “Panda”, apontado como chefe do CV em Capim Grosso; de José Lucas Silva Rocha, o “Índio”, integrante do CV em Eunápolis; e de Victor de Freitas Silva, o “Da Jega”, em Feira de Santana.
  • Raiza da Silva — a equipe de reportagem tenta identificar para quem atuaria.
  • Joanderson Almeida dos Santos — Ainda não foi esclarecido para quem atuaria.

Mandados, prisões e apreensões
A operação cumpriu 22 mandados de prisão, sendo 12 contra detentos já custodiados e 10 contra advogados. Nove foram presos e um segue foragido.

Após as capturas, as prisões foram convertidas em preventivas por decisão da Justiça.

As informações divulgadas até o momento não detalham em quais unidades prisionais os advogados estão custodiados.

Também foram executados 15 mandados de busca e apreensão nas cidades de Serrinha, Salvador, Camaçari, Barreiras, Feira de Santana e Lauro de Freitas.

Foram apreendidos celulares, notebooks e documentos, que serão analisados para aprofundar as investigações e identificar outros possíveis envolvidos.

A Justiça determinou ainda o bloqueio de bens e ativos financeiros dos investigados, até o limite mínimo de R$ 10 milhões, incluindo veículos, imóveis, embarcações e aeronaves.

Como funcionava o esquema, segundo a investigação
De acordo com o MP-BA (Ministério Público da Bahia), os advogados atuavam como um “núcleo jurídico” das facções, explorando o sigilo profissional para burlar o isolamento imposto a presos em regime disciplinar diferenciado.

Câmeras instaladas com autorização judicial registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, encontros no parlatório em que instruções eram repassadas. As gravações mostram orientações sobre compra e venda de armamentos, contabilidade do tráfico e até planejamento de crimes violentos.

Bilhetes com ordens das facções eram escondidos sob roupas íntimas para evitar fiscalização.

Registros em vídeo detalham atuação individual
As imagens captadas mostram a participação direta de alguns investigados:

Ícaro Cardoso Viana foi flagrado recebendo instruções para recolher armas e anotando valores do tráfico enquanto presos usavam códigos como “peixe” (cocaína), “óleo” (crack) e “chá” (maconha).

Fernanda Oliveira Borges aparece retirando papéis escondidos nas vestes e acompanhando a contabilidade do tráfico, além de registrar cobranças de dívidas sob ameaça e planos de sequestro.

Maria Mariana Batista de Oliveira foi identificada mantendo contato com liderança do Comando Vermelho (CV). Em um dos vídeos, ela informa a morte de um comparsa e, em seguida, repassa dados sobre armas e recebe orientações sobre preparo de drogas para venda.

Denúncia detalha esquema criminoso

Segundo a denúncia acolhida pela Justiça, através do juiz Otaviano Andrade de Souza Sobrinho, da 1ª Vara Criminal de Eunápolis, os advogados teriam extrapolado o exercício da atividade profissional para atuar como intermediários da organização criminosa, levando mensagens escritas, transmitindo ordens, recolhendo respostas e atualizando integrantes presos sobre movimentações da facção.

As interceptações reproduzidas na decisão mostram diálogos em que, segundo o MP-BA, são discutidos temas relacionados à distribuição de drogas, compra de armas, movimentação financeira, divisão de lucros, administração de pontos de venda de entorpecentes, conflitos internos da organização e repasse de ordens para integrantes em liberdade.

Em um dos episódios destacados pelo magistrado, a advogada Maria Mariana Batista de Oliveira aparece, segundo o relatório técnico reproduzido na decisão, transmitindo recados entre um preso e pessoas fora do presídio, anotando respostas e discutindo informações relacionadas à comercialização de drogas. Em outros trechos, a mesma advogada conversa com internos sobre armas, compra de munição, reorganização da facção e administração de recursos financeiros, conforme narrado pelo Ministério Público.

Outro trecho da decisão descreve diálogos envolvendo a advogada Maria Tereza Novaes Martins, que, segundo a investigação, teria registrado determinações relacionadas ao comércio de drogas e à gestão financeira da organização criminosa.

Veja:

Diálogo

Já em relação ao advogado Ícaro Cardoso Viana, a decisão reproduz conversas nas quais um interno, identificado como Gledson Bonfim, dita mensagens envolvendo armas, drogas, pagamentos e distribuição de materiais, enquanto o advogado faz as anotações, conforme descrito pelos investigadores.

Confira:

Diálogo

Origem da investigação
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, André Viana, a apuração começou após um atentado contra o diretor de um presídio na região de Eunápolis.

“Essa investigação ela nasce a partir do atentado na região sul da Bahia, contra a vida do diretor do estabelecimento prisional lá da região de Eunápolis, onde foi possível identificar que um advogado, ele fazia a comunicação entre as lideranças criminosas com os criminosos que estavam soltos, justamente para organizar essa ação”, afirmou Viana à TV Globo.

Facções envolvidas e estrutura do esquema
As investigações apontam atuação de integrantes do CV (Comando Vermelho), BDM (Bonde do Maluco) — aliado ao PCC (Primeiro Comando da Capital) — e TCP (Terceiro Comando Puro).

Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), essas organizações mantinham uma estrutura organizada e hierarquizada, com divisão de funções. Mesmo presos em unidade de segurança máxima, líderes continuavam comandando atividades criminosas por meio da comunicação intermediada pelos advogados.

Esse fluxo permitia decisões sobre tráfico, circulação de armas, movimentação financeira e resolução de conflitos internos.

Mandados, prisões e apreensões
A operação cumpriu 22 mandados de prisão preventiva, sendo 12 contra detentos já custodiados e 10 contra advogados. Nove foram presos e um segue foragido.

Também foram executados 15 mandados de busca e apreensão nas cidades de Serrinha, Salvador, Camaçari, Barreiras, Feira de Santana e Lauro de Freitas.

Foram apreendidos celulares, notebooks e documentos, que serão analisados para aprofundar as investigações e identificar outros possíveis envolvidos.

A Justiça determinou ainda o bloqueio de bens e ativos financeiros dos investigados, até o limite mínimo de R$ 10 milhões, incluindo veículos, imóveis, embarcações e aeronaves.

Declarações das autoridades
O coordenador do Gaeco, Luiz Ferreira de Freitas Neto, afirmou: “Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime. Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios”, também em entrevista à emissora.

Já o procurador-geral de Justiça do MP-BA, Pedro Maia Souza Marques, defendeu mudanças no monitoramento em presídios: “A gente não pode permitir que as pessoas que estão sob a custódia do Estado, especialmente as lideranças do crime organizado, possam ter um livre contato com o mundo exterior. Não estamos pretendendo a devassa da privacidade e tornar violável tudo que é discutido, que é feito dentro de qualquer parlatório.”

O que diz a OAB-BA
A OAB-BA (Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia) informou que vai encaminhar o material ao Tribunal de Ética e Disciplina para avaliar a suspensão preventiva dos profissionais investigados.

A entidade também afirmou que acompanhou a operação e garantirá o acesso dos advogados de defesa aos autos, respeitando o devido processo legal.

O que dizem as defesas
A defesa de Fernanda Oliveira Borges declarou que não vai se manifestar sobre o mérito neste momento e adotará medidas para garantir os direitos constitucionais da cliente.

A defesa de Maria Mariana Batista de Oliveira informou que se manifestará apenas nos autos e demonstrou confiança no respeito às garantias constitucionais.

O que ainda falta esclarecer
As investigações seguem em andamento e devem avançar a partir da análise do material apreendido. Ainda não foram divulgadas as identidades de todos os investigados, nem o alcance completo da rede de comunicação entre presos e integrantes em liberdade.

Também permanece em aberto a possível participação de outros profissionais ou integrantes das facções no esquema.

bnews

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