
A 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que adolescentes do sexo feminino enfrentam níveis mais elevados de sofrimento do que os meninos. Entre estudantes de 13 a 17 anos, o número de meninas que relatam tristeza “na maioria das vezes” ou “sempre”, vontade de se machucar e sensação de que a vida não vale a pena é cerca de duas vezes maior que o de meninos. A pesquisa indica que a autoavaliação negativa de saúde mental é três vezes mais frequente entre elas. Os dados de 2024 foram divulgados nesta quarta-feira.
De acordo com o relatório da pesquisa, “é notável que foram as meninas a se sentirem mais preocupadas, mais irritadas, nervosas ou mal-humoradas, que mais se machucaram intencionalmente, que mais perceberam que ninguém se preocupava com elas e que mais sentiram que a vida não valia a pena ser vivida”. Elas também sofrem com mais assédio sexual e estupro.
— Tornar-se mulher na nossa sociedade é muito desafiador. Custa muitas vezes a própria espontaneidade, algo tão precioso para a saúde mental — diz Natália Del Ponte de Assis, psicóloga que pesquisa o sofrimento de meninas adolescentes. — Nesse momento da vida, há uma intensificação do sofrimento, geralmente ligado à submissão e a uma busca por aprovação social. Quando as meninas começam a compartilhar vivências no campo social, que incluem manifestações da sexualidade, elas tendem a ser supercriticadas, julgadas e desvalorizadas.

Gerente de Pesquisas Especiais do IBGE, Marco Andreazzi observa que o gênero impacta mais a saúde mental do que a questão econômica:
— Na escola pública, 29,2% relataram se sentir tristes. Na privada, 27,2%.
As jovens também são as principais vítimas de bullying nas escolas. Segundo o levantamento, mais de um quarto (27,2%) dos alunos do país relata que, nos 30 dias antes da pesquisa, pelo menos duas vezes algum “colega da escola o esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou” tanto que “ficou magoado, incomodado, aborrecido, ofendido ou humilhado”. Entre as meninas, esse índice sobe para 30,1%, contra 24,3% dos meninos. Por outro lado, 13,7% declararam ter praticado bullying — 16,5% dos meninos e 10,9% das meninas.
— Meninos são socializados para serem fortes, valentões, e muitas vezes aprendem que a violência traz benefícios sociais. Esse modelo ajuda a entender por que eles surgem mais como autores de bullying, enquanto as meninas concentram os indicadores de sofrimento emocional — pontua a psicóloga e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Claudia Prioste.
As principais causas de bullying foram a aparência do rosto ou do cabelo (30,2%) e do corpo (24,7%). As meninas também relatam ter mais insatisfação com a imagem corporal, e um número maior delas (21%) do que deles (14%) acredita estar gorda ou muito gorda.
— Eles colocam a própria felicidade na mão do outro. A cobrança estética é mais intensa no caso das meninas. O padrão exigido para a mulher é muito mais rigoroso. Muitas não postam foto sem filtro, e quando postam são duramente criticadas — frisa a psicóloga Anna Lucia Spear King, professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e uma das fundadoras do Instituto Delete, que pesquisa o uso consciente de telas.
A Pense entrevista alunos de escolas públicas e privadas do 7º ano do ensino fundamental até o 3º do ensino médio, com uma amostra representativa do país. Ela reúne informações sobre fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes, acompanhando temas como hábitos alimentares, atividade física, uso de substâncias, saúde mental, violência e ambiente escolar.
“Toda essa análise aponta que o Brasil precisa investir na saúde mental dos adolescentes, em especial, na saúde das meninas; a criação de políticas públicas que contemplem essas diferenças entre os sexos é importante e urgente”, diz o texto da pesquisa.
A Pense também produz um indicador geral da saúde mental dos alunos, que considera as respostas “sempre” e “na maioria das vezes” para perguntas que investigam sentimentos como ansiedade, tristeza e mudanças de humor: em 2024, 22,9% das alunas apresentaram autoavaliação em saúde mental negativa. Entre os meninos, o percentual foi de 6,8.
Em 2019, antes da pandemia, o cenário era ainda pior. Na ocasião, 27% das meninas e 8% dos meninos apresentaram autoavaliação em saúde mental negativa. Quatro dos seis critérios que formam esse indicador melhoraram cinco anos depois, contrariando a expectativa de que, após a crise sanitária, os jovens estariam mais ansiosos e deprimidos.
Violências
Os dados mostram que 8,8% dos adolescentes brasileiros já relataram que foram obrigados a ter relação sexual contra sua vontade — sendo 11,7% das meninas e 5,8% dos meninos. “Dentre 1,1 milhão de adolescentes que foram forçados a terem relações sexuais contra a vontade, a maioria (66,2%) tinha 13 anos ou menos de idade quando sofreu a violência”, aponta o relatório.
Segundo a psicóloga Tatiana Serra, mudanças de comportamento das jovens devem acender o alerta de professores e responsáveis:
— Isolamento, queda no rendimento escolar, recusa em ir à escola ou mudanças no modo de se vestir, com a aluna usando roupas mais pesadas, podem indicar que algo está acontecendo.
A pesquisa também aponta que 15% das adolescentes já perderam aula pelo menos uma vez nos últimos 12 meses pela falta de absorvente, cuja distribuição, por lei, deve ser gratuita na rede pública de saúde ou nas escolas.
*Estagiária sob supervisão de Alfredo Mergulhão
















