Câncer de mama em mulheres jovens: por que o diagnóstico antes dos 40 preocupa médicos?
O câncer de mama é o principal tipo de câncer que atinge a população feminina no Brasil. Em números, ele só é menor que um tipo de câncer de pele não-melanoma, que não tem tanta agressividade.…
Entenda em poucos segundos
Gere um resumo objetivo desta matéria antes de começar a leitura.

O câncer de mama é o principal tipo de câncer que atinge a população feminina no Brasil. Em números, ele só é menor que um tipo de câncer de pele não-melanoma, que não tem tanta agressividade. Assim como no quadro geral do país, a Bahia reflete a mesma relação.
No estado, estima-se que, apenas no ano passado, tenham surgido cerca de 4,1 mil novos casos de câncer de mama. Segundo as expectativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para 2026, a Bahia deve ter um aumento de novas ocorrências da doença, ficando em quase 4,5 mil. Para esse ano, são esperadas cerca de 21,5 novas ocorrências para todas as neoplasias, das quais aproximadamente 5,6 serão de pele do tipo não-melanoma.
Além do aumento de casos, os profissionais da área da saúde também têm observado com preocupação um outro fenômeno: o crescimento da incidência da doença em mulheres jovens. Embora a maior parte das ocorrências seja registrada em mulheres acima de 50 anos, a quantidade de mulheres abaixo dos 40 anos que são diagnosticadas com câncer de mama é expressiva. Outro dado relevante é o registro de idades cada vez mais baixas nas estatísticas.
Em 2025, das cerca de 4,1 mil ocorrências que surgiram na Bahia, o Hospital da Mulher, em Salvador, registrou um total de 1.267 casos novos de pacientes com câncer de mama, o que pode ser considerado um recorte representativo dentro do universo do estado. Desse montante, cerca de 20% das mulheres tinham até 44 anos quando foram diagnosticadas e por volta de 5% tinha menos de 35 anos, algumas delas na casa dos 20. No período, inclusive, houve o registro de uma ocorrência com uma jovem de apenas 19 anos.
Desafios da doença em mulheres jovens
Apesar de os dados para 2026 ainda não terem sido fechados, pela percepção dos profissionais do Hospital da Mulher, a proporção de pacientes mais jovens continua em crescimento. Essa é a impressão do oncologista Diego Nunes, coordenador da Comissão de Residência Médica na instituição. “Os serviços vêm documentando que essa proporção de pacientes mais jovens tem aumentado”, relatou o médico.
Mesmo sem haver a compilação de números exatos, pela avaliação do oncologista, ao longo dos últimos nove anos, desde que o serviço de oncologia foi implantado no hospital, o aumento de novas pacientes com idades abaixo dos 40 anos tem sido gradativo. Pela percepção do médico, a quantidade de pacientes jovens deve ter aumentado entre 30% a 40% de 2017 até os dias atuais.
Para exemplificar o cenário, Diego Nunes usou a lista de atendimentos realizados em um único dia. “Hoje à tarde eu atendi uma paciente de 25 anos. Quando foi diagnosticada, ela estava com 23 e pouco”, contou. Em sua lista de atendimentos para aquele expediente, o médico verificou que metade das pacientes apresentavam idades abaixo de 50 anos. Além da mulher de 25 anos, “estou vendo aqui pacientes que atendi hoje com 31, com 32 e 34 anos”.
Apesar de o crescimento da incidência do câncer de mama em mulheres jovens ser um fato, o oncologista alega que não é possível, até o momento, apontar para o motivo do fenômeno. “Infelizmente, a gente não tem uma causa específica, uma culpada para isso. Pacientes mais jovens têm maior risco de mutação hereditária, mas mesmo assim a maioria são casos esporádicos, sem essa alteração genética. Quando a gente estuda essas alterações genéticas hereditárias, a gente está falando em 5% a 10% dos casos”, ponderou o especialista.
Embora alguns fatores de risco, como sedentarismo, sobrepeso e tabagismo, sejam conhecidos, Diego Nunes disse não haver, até o momento, como determinar com o que estaria efetivamente elevando esses números. “A gente tem observado o aumento da obesidade junto com o aumento do câncer. Mas não temos como afirmar que esse aumento da obesidade é o culpado por isso”, refletiu o médico.
Conforme explica o oncologista, o aparecimento do câncer de mama em pacientes jovens preocupa por conta da agressividade que a doença costuma apresentar nesses casos. Além disso, o médico destaca os impactos em diferentes aspectos da vida destas mulheres, que podem ser agravados e trazer consequências muito específicas para as pacientes em idade reprodutiva e economicamente ativas.
Dificuldade para rastreio, desatenção a sinais e diagnóstico tardio
Uma das maiores preocupações para o câncer de mama em mulheres mais novas é o fato de que, frequentemente, o diagnóstico só ocorre após a doença já ter avançado. “Essas mulheres, com menos de 40 anos, não fazem mamografia de rastreamento. Então, muitas vezes o diagnóstico demora mais a ser notado”, explicou o médico.
Além de as mulheres jovens não costumarem estar no grupo submetido ao rastreamento mamográfico de rotina, o próprio exame pode apresentar limitações para essas pacientes. A constituição encorpada do tecido mais jovem dificulta a detecção de microlesões.
“As mulheres nessa idade têm a mama mais densa, o que torna mais difícil ver lesões na mamografia. Nesse caso, também tem que se lançar mão da ultrassonografia”, comentou o médico apresentando a necessidade de exame complementar para a avaliação nesse contexto.
Mesmo quando a mulher jovem percebe nódulos ou outras alterações nas mamas, nem sempre fica alerta para a possibilidade de estar com a doença. Ao imaginar que o mais provável é que se trate de algo benigno, ela deixa de buscar uma avaliação médica de pronto, o que também adia o diagnóstico e o início do tratamento.
Formas mais agressivas
Um outro ponto relevante, apontado por Diego Nunes, é a característica mais destrutiva do câncer de mama quando acomete pacientes com menos idade. “As mulheres mais jovens costumam apresentar tumores mais agressivos. O comportamento de um tumor de uma mulher de 35 anos, geralmente, é mais agressivo do que o de uma mulher de 70 anos”, exemplificou.
O oncologista explicou, de maneira simplificada, que uma forma de classificar e identificar o tratamento necessário para um câncer é verificar o padrão da imunohistoquímica, receptores hormonais e por uma proteína chamada R2. “Dentro desses três receptores que a gente estuda, estrógeno e progesterona, que são os hormonais, e o R2, quando a paciente tem esses três negativos, a gente chama de triplo negativo”, disse o médico.
Diego Nunes esclareceu que estes são tumores mais agressivos e que não respondem a hormonioterapia, mas respondem a quimioterapia. “Quanto mais jovem é essa mulher, a incidência desse tumor triplo negativo é maior. Ou seja, é mais comum a mulher jovem ter os tumores mais agressivos com o triplo negativo”, falou o oncologista.
A busca da cura para esses casos mais agressivos também precisa de tratamentos e intervenções mais incisivos. Esses tipos de câncer exigem uma quantidade maior de procedimentos, que também têm consequências mais severas ao próprio corpo porque, entre outras características, apresentam maior risco de decorrer em metástase.
“É preciso fazer mais quimioterapia do que para outras mulheres, porque são tumores que muitas vezes crescem de forma mais rápida e a chance de ele ir para outros órgãos, que é a metástase, é maior. A incidência de metástase é maior”, explicou Diego Nunes.
A fertilidade depois do tratamento
Com o diagnóstico tardio somado a formas da doença que costumam ser muito agressivas, acaba por ser necessário um tratamento mais intenso. Além de a severidade da doença trazer uma diminuição das chances de cura, as sequelas após o tratamento do câncer de mama podem ser ainda mais duras para a paciente jovem.
Para uma mulher jovem e que ainda pretende ter filhos, o tratamento contra o câncer de mama acrescenta uma preocupação que não costuma estar presente quando a paciente se encontra em outros estágios de vida, que é a preservação da fertilidade. “Boa parte dos tratamentos oncológicos que a gente faz pode reduzir ou até mesmo impedir que a mulher venha a engravidar”, pontuou o oncologista.
Uma das consequências que podem decorrer do tratamento para as pacientes é a condição chamada insuficiência ovariana. “Muitas vezes, elas acabam entrando em uma menopausa precoce e isso pode impedir ou dificultar uma gestação futura”, falou o especialista. Ele explicou que a fertilidade pode ser afetada tanto por quimioterapia quanto por hormonoterapia e, eventualmente, o tratamento também passa por cirurgia de retirada de ovários.
“Assim, faz parte da nossa avaliação com essas mulheres jovens entender se elas pretendem ter filhos ainda ou se elas já têm prole constituída”, considerou Diego Nunes. Embora as questões de fertilidade não afetem a todas as mulheres em tratamento, o assunto precisa ser abordado em consultório ao se discutir todas as possibilidades, riscos e implicações envolvidos.
Trabalho, filhos, sociedade e vida familiar
Os impactos do câncer de mama para uma mulher jovem, no entanto, não se limitam à possibilidade de uma futura gravidez. Nesta idade, muitas pacientes estão profissionalmente ativas e são responsáveis pela criação e sustento de filhos ainda pequenos.
Diego Nunes lembra que, no caso das mulheres economicamente ativas, os impactos da interrupção do seu trabalho, por conta da doença e do tratamento, podem interferir na vida familiar e também na sociedade. “As mulheres na faixa dos 30 anos, 40 anos, estão talvez no auge da sua produtividade, do seu trabalho. Mulheres quando estão em seus 65, 70 anos, muitas já se aposentaram”, ponderou.
Além de afastá-las das suas atividades profissionais por algum tempo, as limitações que decorrem do câncer vão interferir no seu convívio familiar e nas atividades domésticas. “Muitas dessas mulheres têm filhos pequenos ainda, com 2, 3 anos. Elas não vão conseguir tomar conta dos seus filhos 100%, porque agora têm que se dividir com relação ao tratamento”, apontou o especialista.
Os efeitos físicos e psicológicos do tratamento
O combate ao câncer de mama pode demandar cirurgias e um longo período de tratamento, que também podem deixar consequências físicas. Segundo Diego Nunes, mulheres jovens têm uma chance maior de precisar de procedimentos como mastectomia e cirurgias mais extensas na axila.
“O esvaziamento axilar aumenta o risco de linfedema”, disse o médico, explicando que o problema está relacionado à retirada de linfonodos e a alterações na drenagem linfática. “Quanto mais linfonodos da axila eu tiro, mais eu posso comprometer a drenagem linfática”, disse o médico, salientando que o problema frequentemente causa um inchaço crônico e dificuldade de movimentação do braço.
“Algumas vão estar com o braço mais inchado e isso não é um sinal da recidiva do câncer. É uma sequela do tratamento, da cirurgia e da radioterapia”, esclareceu. Para o médico, todas essas questões físicas, que tocam não apenas a funcionalidade como também a estética, vão interferir no lado psicológico da mulher. Nesse período, é muito comum que surjam não só questões com autoestima, como também quadros severos de ansiedade.
O oncologista também comenta sobre as preocupações recorrentes a essas pacientes, que acabam levando ao desenvolvimento de alguns quadros de saúde mental. “A maior parte dessas pacientes, quanto mais jovens, ficam muito ansiosas”, disse o médico. Preocupações com os filhos pequenos, com o trabalho, sustento da família e o receio de um possível retorno da doença costumam acompanhá-las a todo momento. “Tudo isso traz uma incerteza, uma ansiedade, um medo do futuro muito grande”, avaliou.
A vida dessas mulheres costuma sofrer grandes transformações no decorrer da descoberta da doença até o fim de todo o processo de recuperação. “A gente vê muitas outras coisas. Tive várias pacientes que, no meio do tratamento, o marido separa, são abandonadas pelo parceiro. Isso muitas vezes acaba comprometendo também a fonte de renda e muitas precisam tentar ver se tem um benefício que possa ajudá-la durante esses períodos”, acrescentou o médico.
Atenção aos sinais e apoio multidisciplinar
Diante de um quadro tão complexo, que abrange dimensões físicas, emocionais, sociais e profissionais, a recuperação de um câncer de mama, sobretudo para pacientes jovens, precisa do apoio de diversos profissionais. “Tem que ser um apoio multidisciplinar, porque as repercussões do tratamento dessa mulher na vida dela são muito grandes”, defendeu Diego Nunes.
“A gente sempre tenta, de acordo com a nossa possibilidade da parte médica, encaminhar para fisioterapia, que é muito importante para a recuperação física dessa paciente, e também suporte psicológico e serviço social, para ver se ela consegue voltar”, descreveu o oncologista sobre a superação da doença e de tudo que envolve o retorno às atividades cotidianas para essas mulheres.
Por toda a gravidade e repercussões que podem vir com o surgimento de um câncer de mama, o diagnóstico precoce e iniciar o tratamento assim que possível se mostra fundamental. Assim, diante da possibilidade de um diagnóstico em idades consideradas baixas, o oncologista alerta para que a juventude não seja usada como motivo para ignorar uma alteração nas mamas.
“Muitas vezes, a mulher jovem fala, ‘ah, mas eu tenho 30 anos, não deve ser nada’, e às vezes é. Não quer dizer que seja, nem todo gânglio axilar é câncer. Mas, quando tiver alguma alteração, procure ajuda o mais rápido, para que a gente possa diagnosticar mais rápido. A mulher não deve negligenciar só porque é jovem”, aconselhou o especialista.
Bnews










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