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Gonet nega amizade com Vorcaro, rejeita suspeição e diz que não há motivo para investigação sobre sua conduta

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, volta ao STF para a retomada do julgamento — Foto: Cristiano Mariz

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou nesta segunda-feira que não mantém relação de amizade com Daniel Vorcaro e sustentou que não há elementos que justifiquem seu afastamento das investigações envolvendo o Banco Master ou a abertura de uma apuração criminal sobre sua própria conduta. Em manifestação de 30 páginas encaminhada ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF), Gonet rebateu suspeitas levantadas a partir de mensagens encontradas no celular do banqueiro e defendeu que sua atuação na Operação Compliance Zero foi “isenta e técnica”.

O documento foi enviado ao subprocurador-geral Francisco de Assis Vieira Sanseverino, relator do procedimento aberto no Conselho Superior para analisar as referências a Gonet encontradas no material apreendido com Vorcaro. O procedimento teve origem em notícia de que o banqueiro teria procurado terceiros para tentar uma interlocução com o chefe da PGR. Posteriormente, foi anexada uma representação de um partido político e três parlamentares questionando uma suposta relação pessoal entre os dois e a atuação de Gonet no caso Master.

“Não tenho com o Sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado”, escreveu ao negar proximidade com o ex-banqueiro. Segundo ele, o único encontro presencial entre ambos ocorreu em abril de 2024, durante um evento jurídico realizado em Londres.

Gonet afirma que, naquele momento, Vorcaro era uma pessoa desconhecida para ele e que não havia informações públicas sobre eventuais irregularidades envolvendo o Banco Master. Segundo o procurador-geral, os dois estiveram juntos apenas no ambiente coletivo do evento e não mantiveram conversa profissional. Ele também afirma que Vorcaro sequer estava em sua lista de contatos e que não houve ligações entre os dois.

O procurador-geral relata uma segunda e última interação, por telefone, em março de 2025. Segundo sua versão, o advogado Ciro Soares estava com Gonet quando ligou para Vorcaro e lhe passou o aparelho para uma breve saudação. Gonet afirma que a conversa ocorreu antes de ter conhecimento de suspeitas sobre o Master e não tratou de qualquer assunto relacionado às suas atribuições.

Na resposta ao Conselho, Gonet também procura contextualizar mensagens em que aparece dizendo estar “na torcida por vocês”, além das expressões “saudade de você” e “você é uma máquina”. O PGR sustenta que as duas últimas frases eram dirigidas a Ciro Soares, e não a Vorcaro, e afirma que não pode ser responsabilizado pela forma como terceiros reproduziram suas mensagens.

Outro ponto abordado é a possibilidade de participação de um filho de Gonet em um segundo evento que seria realizado em Londres em 2025. O procurador-geral afirma que jamais pediu a Vorcaro que convidasse ou custeasse a viagem do filho. Segundo ele, Ciro Soares apenas perguntou se o filho iria ao evento, que acabou cancelado. Gonet acrescenta que o filho nunca teve contato com Vorcaro e não viajou a Londres.

Depois de tratar da relação pessoal, o procurador-geral dedica parte do documento a reconstruir sua atuação nas investigações do Master. Gonet afirma que, em julho de 2025, recebeu o então presidente do Banco Central, acompanhado de integrantes da instituição, que relatou indícios de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional em operações envolvendo créditos adquiridos pelo Master e posteriormente cedidos ao BRB.

Como não havia naquele momento indício de envolvimento de autoridade com foro no STF ou no STJ, segundo o relato, a orientação foi para que o Banco Central encaminhasse formalmente o material à Procuradoria da República no Distrito Federal. Gonet afirma que, a partir daí, determinou a seu chefe de gabinete, Ubiratan Cazetta, que colocasse a estrutura da PGR à disposição dos procuradores responsáveis pela investigação.

A manifestação reproduz declaração do procurador Gabriel Pimenta Alves, que atuava no caso na primeira instância, segundo a qual os contatos com o gabinete de Gonet nunca envolveram tentativa de interferência na investigação nem busca por informações sigilosas. De acordo com o relato, a atuação da cúpula da PGR buscava oferecer respaldo institucional e facilitar a interlocução com outros órgãos.

Gonet também rebate diretamente as referências ao nome “Paulo” encontradas nas anotações de Vorcaro. Segundo o procurador-geral, ainda que se considere que as referências fossem dirigidas a ele, os registros demonstrariam justamente que as tentativas do banqueiro de obter ajuda não tiveram resultado. Ele sustenta que não recebeu pedido para interferir na investigação e que as anotações mostram Vorcaro ainda “no escuro” sobre o andamento do caso.

O PGR afirma ainda que, quando essas anotações foram feitas, entre outubro e novembro de 2025, a investigação estava sob responsabilidade de um procurador da República na primeira instância, e não diretamente da Procuradoria-Geral. Para Gonet, é “despropositado e mesmo injurioso” atribuir caráter acusatório a registros que, segundo ele, demonstram que as pretensões manifestadas pelo banqueiro não se concretizaram.

Ao responder à alegação de que as próprias menções ao seu nome deveriam impedi-lo de atuar nesse episódio, Gonet argumenta que o relatório policial não lhe atribuiu crime e afirma que uma referência feita por um investigado não pode, por si só, produzir sua suspeição. O PGR acrescenta que o entendimento jurídico apresentado por ele foi posteriormente ratificado pelo vice-procurador-geral e pelos subprocuradores Antônio Edílio Magalhães Teixeira e André de Carvalho Ramos, designados para atuar diretamente no caso Master.

Para Gonet, admitir o afastamento nessas circunstâncias permitiria a criação artificial de situações destinadas a provocar a suspeição de autoridades responsáveis por investigações. Ele cita regras do Código de Processo Civil que vedam a criação de fatos supervenientes com o objetivo de caracterizar impedimento ou suspeição.

Ao final, Gonet afirma estar “juridicamente plenamente apto” a continuar atuando nos procedimentos relacionados ao Banco Master e a Vorcaro. O procurador-geral sustenta que nada nos episódios relatados justifica uma investigação criminal sobre sua conduta.

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