{"id":34374,"date":"2025-08-27T07:22:00","date_gmt":"2025-08-27T10:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/minutobahia24h.com.br\/?p=34374"},"modified":"2025-08-27T07:22:02","modified_gmt":"2025-08-27T10:22:02","slug":"o-que-odores-corporais-revelam-sobre-a-saude-e-como-podem-ajudar-a-diagnosticar-doencas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/minutobahia24h.com.br\/?p=34374","title":{"rendered":"O que odores corporais revelam sobre a sa\u00fade \u2014 e como podem ajudar a diagnosticar doen\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"449\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-354.jpg?resize=800%2C449&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-34375\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-354.jpg?w=984&amp;ssl=1 984w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-354.jpg?resize=300%2C168&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-354.jpg?resize=768%2C431&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-354.jpg?resize=750%2C421&amp;ssl=1 750w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nosso odor se altera quando estamos doentes. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC<br><br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Foi a rea\u00e7\u00e3o da analista qu\u00edmica Perdita Barran, quando um colega contou a ela sobre uma mulher escocesa que afirmava que conseguia sentir o cheiro do mal de Parkinson.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Ela provavelmente est\u00e1 apenas sentindo o odor de pessoas idosas, reconhecendo os sintomas de Parkinson e fazendo algum tipo de associa\u00e7\u00e3o&#8221;, pensou Barran sobre o caso.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A mulher era uma enfermeira aposentada, hoje com 75 anos, chamada Joy Milne.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela havia entrado em contato com um colega de Barran, o neurocientista Tilo Kunath, da Universidade de Edimburgo, na Esc\u00f3cia, quando ele foi palestrante em um evento, em 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>Milne contou a Kunath que ela descobriu sua capacidade quando observou que seu marido, Les, havia desenvolvido um novo odor almiscarado, anos antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, ele foi diagnosticado com mal de Parkinson, uma doen\u00e7a neurodegenerativa progressiva, caracterizada por tremores e outros sintomas motores.<\/p>\n\n\n\n<p>Milne s\u00f3 fez a conex\u00e3o quando compareceu a uma reuni\u00e3o em grupo de pacientes de Parkinson, na sua cidade natal de Perth, na Esc\u00f3cia. Ela percebeu que todos os pacientes tinham o mesmo odor almiscarado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Por isso, n\u00f3s decidimos testar se ela tinha raz\u00e3o&#8221;, conta Barran. Na \u00e9poca, a analista trabalhava na Universidade de Edimburgo e, hoje, est\u00e1 na Universidade de Manchester, na Inglaterra.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O resultado mostrou que estudar a experi\u00eancia de Milne n\u00e3o foi perda de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Kunath, Barran e seus colegas pediram a Milne que cheirasse 12 camisetas. Seis delas haviam sido usadas recentemente por pacientes com Parkinson e outras seis eram de outras pessoas, sem a doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A enfermeira aposentada n\u00e3o s\u00f3 identificou corretamente os seis pacientes, como encontrou uma s\u00e9tima pessoa, que foi diagnosticada com Parkinson menos de um ano depois.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Foi meio que incr\u00edvel&#8221;, relembra Barran. &#8220;Ela pr\u00e9-diagnosticou a condi\u00e7\u00e3o, como havia feito com seu marido.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A not\u00edcia da sua espantosa capacidade chegou \u00e0s manchetes de todo o mundo em 2015.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O cheiro das doen\u00e7as<\/h2>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Milne n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fora do comum quanto se pode imaginar.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo humano libera uma s\u00e9rie de odores diferentes. E um novo cheiro pode indicar que algo mudou no corpo ou deu errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, os cientistas est\u00e3o trabalhando em t\u00e9cnicas para detectar sistematicamente biomarcadores olfativos que possam acelerar o diagn\u00f3stico de um fant\u00e1stico conjunto de condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. Elas variam do mal de Parkinson at\u00e9 les\u00f5es cerebrais e c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<p>A chave para detectar essas doen\u00e7as pode estar escondida bem debaixo do nosso nariz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2-g1.glbimg.com\/7crTggd1n5_qe-YTgo6eZEyuTx4%3D\/0x0%3A800x449\/984x0\/smart\/filters%3Astrip_icc%28%29\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/7\/v\/phmQVjSf67Rb13T93Uxw\/thumbnail-image002-49-.png?w=800&#038;ssl=1\" alt=\"As pessoas que sofrem de Parkinson emitem um odor caracter\u00edstico. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>As pessoas que sofrem de Parkinson emitem um odor caracter\u00edstico. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Fico maluco ao ver que as pessoas est\u00e3o morrendo e estamos introduzindo agulhas no seu traseiro para descobrir se elas t\u00eam c\u00e2ncer de pr\u00f3stata, enquanto o sinal j\u00e1 \u00e9 emitido e os c\u00e3es podem detect\u00e1-lo&#8221;, afirma o f\u00edsico Andreas Mershin.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ele \u00e9 um dos fundadores da empresa RealNose.ai, que est\u00e1 desenvolvendo um nariz rob\u00f3tico para diagnosticar doen\u00e7as com base no odor das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma tecnologia necess\u00e1ria, j\u00e1 que relativamente poucas pessoas possuem um nariz suficientemente poderoso para detectar as denunciadoras subst\u00e2ncias bioqu\u00edmicas que surgem nos primeiros est\u00e1gios de uma doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Joy Milne \u00e9 uma dessas pessoas. Ela tem hiperosmia heredit\u00e1ria, uma caracter\u00edstica que faz com que seu olfato seja muito mais sens\u00edvel do que a m\u00e9dia dos seres humanos. Ela \u00e9 uma esp\u00e9cie de superfarejadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem doen\u00e7as que emitem um forte cheiro caracter\u00edstico que a maioria dos seres humanos consegue sentir.<\/p>\n\n\n\n<p>O h\u00e1lito ou a pele das pessoas diab\u00e9ticas com epis\u00f3dio de hipoglicemia, por exemplo, pode ter aroma de frutas ou &#8220;ma\u00e7\u00e3s estragadas&#8221;, devido ao ac\u00famulo de subst\u00e2ncias \u00e1cidas com cheiro de fruta chamadas cetonas na corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes odores s\u00e3o produzidos quando o corpo metaboliza gordura, em vez de glicose.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas com doen\u00e7as hep\u00e1ticas podem produzir um odor sulfuroso ou mofado no seu h\u00e1lito ou na urina. E, se o seu h\u00e1lito tiver cheiro de am\u00f4nia, peixe ou similar \u00e0 urina, este pode ser um sinal de doen\u00e7a renal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2-g1.glbimg.com\/qMgqNnyS9a3iKOYsvhPSYaaUizo%3D\/0x0%3A800x450\/984x0\/smart\/filters%3Astrip_icc%28%29\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/B\/i\/j52SqBTwe8yengQBSSsw\/thumbnail-image003-33-.png?w=800&#038;ssl=1\" alt=\"As pessoas com hiperosmia t\u00eam o sentido do olfato superdesenvolvido. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>As pessoas com hiperosmia t\u00eam o sentido do olfato superdesenvolvido. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas doen\u00e7as infecciosas tamb\u00e9m emitem cheiros caracter\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fezes com odor doce podem ser sinal de infec\u00e7\u00e3o com c\u00f3lera ou com a bact\u00e9ria&nbsp;<em>Clostridioides difficile<\/em>, uma causa comum de diarreia. Mas um estudo encontrou um grupo de infelizes enfermeiros hospitalares que foram incapazes de diagnosticar com precis\u00e3o os pacientes cheirando suas fezes.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a tuberculose pode fazer o h\u00e1lito de uma pessoa ter odor desagrad\u00e1vel, como o de cerveja estragada, e deixar sua pele com cheiro de papel\u00e3o \u00famido e salmoura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas detectar outras doen\u00e7as exige um nariz especial.<\/p>\n\n\n\n<p>O olfato dos c\u00e3es \u00e9 considerado at\u00e9 100 mil vezes mais forte que o nosso. E os cientistas j\u00e1 treinaram c\u00e3es para cheirar c\u00e2ncer do pulm\u00e3o, mama, ov\u00e1rio, bexiga e pr\u00f3stata nas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um estudo de c\u00e2ncer da pr\u00f3stata, por exemplo, os c\u00e3es conseguiram detectar a doen\u00e7a em amostras de urina com \u00edndice de sucesso de 99%.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e3es tamb\u00e9m foram treinados para detectar os sinais iniciais de mal de Parkinson, diabetes, proximidade de convuls\u00f5es epil\u00e9ticas e mal\u00e1ria, tudo apenas com o cheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem todos os c\u00e3es t\u00eam todo o necess\u00e1rio para se tornarem detectores de doen\u00e7as. E treinar os animais exige tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas afirmam que podemos reproduzir as extraordin\u00e1rias capacidades olfativas caninas (e de pessoas como Milne) em laborat\u00f3rio, para talvez possibilitar que um simples cotonete seja suficiente para o teste.<\/p>\n\n\n\n<p>Barran, por exemplo, utiliza cromatografia gasosa-espectrometria de massa para analisar sebo (uma subst\u00e2ncia oleosa produzida na pele das pessoas) de pacientes com Parkinson.<\/p>\n\n\n\n<p>A cromatografia gasosa separa os compostos e a espectrometria de massa os pesa, permitindo determinar a natureza exata das mol\u00e9culas presentes. As ind\u00fastrias de alimentos, bebidas e perfumes j\u00e1 utilizam rotineiramente esta forma de an\u00e1lise de odores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Testes r\u00e1pidos<\/h2>\n\n\n\n<p>Dos cerca de 25 mil compostos comumente encontrados na pele humana, cerca de 3 mil s\u00e3o regulados de forma diferente em pessoas com Parkinson, segundo Barran.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Estamos agora em posi\u00e7\u00e3o de reduzir este n\u00famero para cerca de 30, com diferen\u00e7as realmente muito consistentes, em todas as pessoas com Parkinson&#8221;, explica ela.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2-g1.glbimg.com\/oVAOOUZSJSUKNFK76Hu0QELc8UQ%3D\/0x0%3A800x449\/984x0\/smart\/filters%3Astrip_icc%28%29\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/M\/e\/qrs8NsSQyBEQTkymOoug\/thumbnail-image004-25-.png?w=800&#038;ssl=1\" alt=\"Doen\u00e7as alteram odor corporal devido a um grupo de mol\u00e9culas conhecidas como compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Doen\u00e7as alteram odor corporal devido a um grupo de mol\u00e9culas conhecidas como compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis. \u2014 Foto: GETTY IMAGES via BBC<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos desses compostos s\u00e3o lip\u00eddios ou gorduras e \u00e1cidos graxos de cadeia longa, segundo Barran.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo inicial se concentrou em tr\u00eas mol\u00e9culas similares a lip\u00eddios, relacionadas ao odor causado pela doen\u00e7a: \u00e1cido hip\u00farico, eicosano e octadecanal.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha faz sentido, pois estudos anteriores indicam que o metabolismo anormal dos lip\u00eddios \u00e9 um sinal caracter\u00edstico do mal de Parkinson.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;O que descobrimos \u00e9 que a capacidade das c\u00e9lulas de transportar \u00e1cidos graxos de cadeia longa para o interior da mitoc\u00f4ndria \u00e9 prejudicada [em pessoas com mal de Parkinson]&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Sabemos, portanto, que existem mais desses lip\u00eddios em circula\u00e7\u00e3o pelo corpo. Alguns deles s\u00e3o excretados pela pele e \u00e9 o que n\u00f3s medimos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe, agora, est\u00e1 desenvolvendo um simples teste da pele com swab, que pode detectar o mal de Parkinson nos seus est\u00e1gios iniciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, os cl\u00ednicos gerais costumam encaminhar as pessoas com sintomas de tremores para um neurologista, que ir\u00e1, ent\u00e3o, fazer o diagn\u00f3stico. Mas isso pode levar anos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;O que queremos \u00e9 ter um teste n\u00e3o invasivo, muito r\u00e1pido, que permita selecionar uma pessoa de forma eficiente, para podermos, ent\u00e3o, consultar um neurologista, que ir\u00e1 avali\u00e1-la e dizer &#8216;sim&#8217; ou &#8216;n\u00e3o'&#8221;, explica Barran.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O papel das mol\u00e9culas<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas por que as doen\u00e7as alteram nosso odor corporal? Isso se deve a um grupo de mol\u00e9culas conhecidas como compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis (COVs).<\/p>\n\n\n\n<p>Para permanecer vivo, o nosso corpo precisa transformar continuamente os alimentos e bebidas em energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas ocorre nas mitoc\u00f4ndrias, as min\u00fasculas estruturas celulares que convertem os a\u00e7\u00facares da nossa alimenta\u00e7\u00e3o em energia que o nosso corpo pode utilizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas produzem mol\u00e9culas conhecidas como metab\u00f3litos. Algumas delas s\u00e3o vol\u00e1teis, ou seja, elas podem evaporar facilmente \u00e0 temperatura ambiente \u2014 e, possivelmente, ser captadas pelo nosso nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>Os COVs s\u00e3o, ent\u00e3o, expelidos pelo corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se voc\u00ea sofrer uma infec\u00e7\u00e3o, doen\u00e7a ou les\u00e3o, \u00e9 claro que haver\u00e1 efeitos sobre o seu metabolismo&#8221;, afirma o ecologista qu\u00edmico Bruce Kimball, do Centro dos Sentidos Qu\u00edmicos Monell, um instituto de pesquisa localizado na Filad\u00e9lfia, nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Esta mudan\u00e7a no metabolismo ser\u00e1 percebida na distribui\u00e7\u00e3o de metab\u00f3litos em diferentes lugares do corpo.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, ter uma doen\u00e7a pode alterar os COVs produzidos e o cheiro caracter\u00edstico do nosso corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Examinamos diversas infec\u00e7\u00f5es virais e bacterianas, examinamos c\u00e2ncer do p\u00e2ncreas e raiva. A lista \u00e9 bastante longa&#8221;, explica Kimball.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu diria que, em compara\u00e7\u00e3o com condi\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, \u00e9 muito raro n\u00e3o observarmos a capacidade de diferenciar entre a condi\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e qualquer condi\u00e7\u00e3o que estivermos examinando. \u00c9 bastante t\u00edpico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, fundamentalmente, muitas das mudan\u00e7as de COVs associadas a essas doen\u00e7as s\u00e3o sutis demais para que os seres humanos possam detect\u00e1-las. \u00c9 por isso que os c\u00e3es (ou aparelhos m\u00e9dicos farejadores) podem vir a nos ajudar no futuro a diagnosticar algumas condi\u00e7\u00f5es s\u00e9rias de dif\u00edcil detec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Kimball est\u00e1 trabalhando com seus colegas para desenvolver um teste de diagn\u00f3stico de les\u00f5es cerebrais em crian\u00e7as que praticam esportes de contato, com base nas mudan\u00e7as dos COVs emitidos pelos seus corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, eles publicaram um estudo que revela que les\u00f5es cerebrais traum\u00e1ticas em camundongos causam odor distinto e \u00e9 poss\u00edvel treinar outros camundongos a farej\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um novo estudo a ser publicado em breve, Kimball observou cetonas espec\u00edficas na urina humana, nas primeiras horas ap\u00f3s uma concuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se sabe ao certo por que as subst\u00e2ncias odor\u00edferas s\u00e3o liberadas ap\u00f3s essas les\u00f5es, mas uma teoria \u00e9 que o c\u00e9rebro libera COVs como subproduto, enquanto tenta se curar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;A classe das cetonas que observamos indica que tem algo a ver com tentar conseguir mais energia para o c\u00e9rebro, talvez para combater a les\u00e3o ou, pelo menos, apoiar a recupera\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Kimball.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Existe uma boa raz\u00e3o para pensar desta forma. Estudos demonstraram que as cetonas podem servir de fontes de energia alternativas ap\u00f3s les\u00f5es do c\u00e9rebro. Acredita-se que elas forne\u00e7am qualidades neuroprotetoras.<\/p>\n\n\n\n<p>O odor do corpo tamb\u00e9m pode revelar que uma pessoa sofre de mal\u00e1ria. Em 2018, cientistas descobriram que crian\u00e7as infectadas com mal\u00e1ria emitem um cheiro caracter\u00edstico atrav\u00e9s da pele, que as torna especialmente atraentes para os mosquitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudando amostras de 56 crian\u00e7as no oeste do Qu\u00eania, a equipe identificou um odor &#8220;de frutas e grama&#8221; que pareceu irresist\u00edvel para os insetos voadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras an\u00e1lises dessas amostras revelaram a presen\u00e7a de subst\u00e2ncias denominadas alde\u00eddos, especificamente heptanal, octanal e nonanal. Eles s\u00e3o respons\u00e1veis pelo odor caracter\u00edstico e a pesquisa poder\u00e1 ser usada para desenvolver um novo teste de mal\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto, os cientistas esperam reproduzir o aroma e us\u00e1-lo como armadilha para capturar mosquitos e retir\u00e1-los de aldeias e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Mershin \u00e9 ex-pesquisador cient\u00edfico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos (MIT, na sigla em ingl\u00eas). Agora, ele trabalha na RealNose.ai e afirma que ele e sua equipe esperam desenvolver um aparelho detector de odores que possa identificar c\u00e2ncer da pr\u00f3stata, respons\u00e1vel pela morte de um a cada 44 homens.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;A empresa emergiu a partir dos meus cerca de 19 anos de pesquisas no MIT, onde a Darpa [Ag\u00eancia do Projeto de Pesquisa Avan\u00e7ado de Defesa, na sigla em ingl\u00eas] me pediu para ultrapassar o limite de detec\u00e7\u00e3o do nariz dos c\u00e3es&#8221;, ele conta. &#8220;Eles nos pediram, basicamente, para construir biociborgues.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O aparelho<\/h2>\n\n\n\n<p>O aparelho sendo desenvolvido atualmente pela RealNose.ai incorpora receptores olfativos humanos reais, cultivados por c\u00e9lulas-tronco em laborat\u00f3rio. Eles s\u00e3o ajustados para permitir a detec\u00e7\u00e3o das diversas mol\u00e9culas odor\u00edferas associadas ao c\u00e2ncer da pr\u00f3stata.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, o aprendizado de m\u00e1quina (uma forma de intelig\u00eancia artificial) busca padr\u00f5es de ativa\u00e7\u00e3o dos receptores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Conhecer os componentes que existem em uma amostra n\u00e3o \u00e9 suficiente&#8221;, explica Mershin. &#8220;Os ingredientes de um bolo nos dizem pouco sobre o sabor ou o aroma do bolo.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso precisa acontecer depois que os seus sensores interagem com essas subst\u00e2ncias vol\u00e1teis e seu c\u00e9rebro processa aquela informa\u00e7\u00e3o para transform\u00e1-la em uma experi\u00eancia perceptiva.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos buscando padr\u00f5es da ativa\u00e7\u00e3o sensorial que sejam mais pr\u00f3ximos do que fazemos como mente, como c\u00e9rebro&#8221;, afirma Mershin.<\/p>\n\n\n\n<p>Joy Milne agora trabalha ao lado de Barran na sua equipe de pesquisa. Ela ajuda a desenvolver um teste de diagn\u00f3stico de Parkinson e outras condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Atualmente, n\u00f3s n\u00e3o a usamos muito para detectar odores&#8221;, conta Barran.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela consegue, no m\u00e1ximo, fazer 10 amostras por dia e \u00e9 emocionalmente muito cansativo. Ela tem 75 anos e, por isso, \u00e9 preciosa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se a t\u00e9cnica de Barran puder reproduzir a capacidade de Milne e identificar o mal de Parkinson em est\u00e1gio inicial, este poder\u00e1 ser um \u00f3timo legado para ela e seu marido Les.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Acho not\u00e1vel que Joy e Les eram pessoas com forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e, por isso, eles sabiam que esta observa\u00e7\u00e3o era significativa&#8221;, afirma Barran.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas acho que a quest\u00e3o, aqui, \u00e9 que todos deveriam se sentir empoderados sobre a sua sa\u00fade, a sa\u00fade dos seus amigos ou da sua fam\u00edlia, para fazer observa\u00e7\u00f5es e agir, se sentirem que existe algo de errado.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi a rea\u00e7\u00e3o da analista qu\u00edmica Perdita Barran, quando um colega contou a ela sobre uma mulher escocesa que afirmava que conseguia sentir o cheiro do mal de Parkinson. &#8220;Ela provavelmente est\u00e1 apenas sentindo o odor de pessoas idosas, reconhecendo os sintomas de Parkinson e fazendo algum tipo de associa\u00e7\u00e3o&#8221;, pensou Barran sobre o caso. 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