{"id":13290,"date":"2024-06-11T07:55:39","date_gmt":"2024-06-11T10:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/minutobahia24h.com.br\/?p=13290"},"modified":"2024-06-11T07:55:40","modified_gmt":"2024-06-11T10:55:40","slug":"a-indigena-mexicana-que-ficou-12-anos-em-hospital-psiquiatrico-porque-nao-entendiam-sua-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/minutobahia24h.com.br\/?p=13290","title":{"rendered":"A ind\u00edgena mexicana que ficou 12 anos em hospital psiqui\u00e1trico porque n\u00e3o entendiam sua l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"446\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Sem-titulo-104.jpg?resize=800%2C446&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-13291\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Sem-titulo-104.jpg?w=984&amp;ssl=1 984w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Sem-titulo-104.jpg?resize=300%2C167&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Sem-titulo-104.jpg?resize=768%2C428&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/minutobahia24h.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Sem-titulo-104.jpg?resize=750%2C418&amp;ssl=1 750w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A hist\u00f3ria de Rita Pati\u00f1o Quintero virou tema de document\u00e1rio. \u2014 Foto: Piano Produ\u00e7\u00f5es via BBC<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A pol\u00edcia chegou \u00e0 igreja no dia 8 de junho de 1983. A mulher, com as roupas sujas, os p\u00e9s machucados e confusa, pronunciou algumas palavras que os agentes n\u00e3o conseguiram entender. Ela foi interrogada em ingl\u00eas, mas a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi poss\u00edvel. E como ningu\u00e9m sabia o que aquela desconhecida dizia,\u00a0<strong>ela perdeu a liberdade durante os 12 anos seguintes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome era Rita Pati\u00f1o Quintero, uma ind\u00edgena Rar\u00e1muri, origin\u00e1ria do Estado de Chihuahua, no norte do\u00a0<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>. Naquele dia, ela se refugiava no por\u00e3o do templo metodista da cidade de Manter, no oeste do Kansas, nos\u00a0<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da chegada das autoridades, um pastor a descobriu enquanto Rita comia ovos crus. Acredita-se que ela chegou l\u00e1 vindo diretamente de solo mexicano. Isso porque rar\u00e1muri significa \u201ccorredores ligeiros\u201d e vem de Rar\u00e1, que signigica p\u00e9, e muri, leve.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esse grupo \u00e9tnico, a corrida tem um importante significado social e cultural. Os rar\u00e1muri habitam as encostas da Serra Tarahumara, cuja complicada topografia os obriga a superar obst\u00e1culos, atravessar riachos e escalar montanhas. \u00c9 preciso ser r\u00e1pido e ainda mais resiliente para enfrentar as condi\u00e7\u00f5es da \u00e1rea em que vivem. No Kansas, Rita pode ter enfrentado condi\u00e7\u00f5es mais secas e frias do que nas montanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela foi levada para uma delegacia, onde bateu em um policial que tentava limp\u00e1-la, conta o cineasta Santiago Esteinou, que em abril de 2024 lan\u00e7ou o document\u00e1rio L<em>a Mujer de Estrellas y Monta\u00f1as<\/em>&#8221; (&#8220;A Mulher de Estrelas e Montanhas&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), no qual a hist\u00f3ria dela \u00e9 contada a partir de uma longa apura\u00e7\u00e3o em arquivos e por meio de entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Levaram um tradutor e ele faz um relato rid\u00edculo. Concluiu que ela devia ser ind\u00edgena e que tinha vindo de algum pa\u00eds latino-americano. Mas mesmo n\u00e3o entendendo nada do que ela lhe dizia, ele comentou que as palavras de Rita n\u00e3o faziam sentido. Eles a levaram ao tribunal e conclu\u00edram que ela n\u00e3o estava em pleno dom\u00ednio de sua capacidade mental, que era um perigo para si mesma, ent\u00e3o a levaram para um hospital psiqui\u00e1trico&#8221;, explica Esteinou \u00e0 BBC News Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Rita quase n\u00e3o falava espanhol, sua l\u00edngua materna era o rar\u00e1muri. No sistema judici\u00e1rio do Kansas e na institui\u00e7\u00e3o para onde ela foi levada, n\u00e3o havia tradutores que pudessem ajudar no seu caso. A mulher n\u00e3o entendia o processo legal contra ela, n\u00e3o sabia onde estava nem por que estava presa. <strong>O resto da sua vida foi marcado pela exclus\u00e3o, viol\u00eancia m\u00e9dica, burocracia institucional e solid\u00e3o.<\/strong>\u00a0Mas ela tamb\u00e9m era uma mulher cercada de mitos e mist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quem era Rita Pati\u00f1o Quintero<\/h2>\n\n\n\n<p>Pastora de ovelhas, parteira, fitoterapeuta, artes\u00e3, lavadeira. Rita foi e fez muitas coisas, segundo o document\u00e1rio de Esteinou, do qual participam a cunhada dela, a sobrinha e v\u00e1rios vizinhos que a conheceram na juventude.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo que o diretor reitera sobre Rita, que nasceu em 1930, \u00e9 que ela n\u00e3o seguiu os par\u00e2metros da comunidade onde morava. Origin\u00e1ria de Piedras Verdes, posteriormente morou pr\u00f3ximo \u00e0 regi\u00e3o de Cerocahui, em um povoado do munic\u00edpio de Urique, no\u00a0<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>De personalidade forte, que ignorava qualquer ordem, teve um companheiro e um filho.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Ela possu\u00eda um vasto rebanho de ovelhas, era &#8220;uma mulher rica nesse sentido&#8221;, diz o documentarista. E tamb\u00e9m era caridosa: produzia queijo e o doava \u00e0 comunidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas um dia tudo mudou e Rita logo se tornaria uma &#8220;indesej\u00e1vel&#8221; entre seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vizinhos dizem seu rebanho foi roubado e ela foi acusada de ter assassinado o marido, algo que nunca foi provado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma pessoa boa, muito boa. E toda a minha vida eu disse que ela era assim. O que aconteceu \u00e9 que a trataram mal. Dizia-se que ela havia brigado com o marido e o matou&#8221;, diz Proc\u00f3pio Mancinas, que morava perto de Rita em Urique e que participa do document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Rita Pati\u00f1o n\u00e3o matou Jer\u00f3nimo Renter\u00edas. Roubaram as cabras de Rita Pati\u00f1o, roubaram seus cobertores, roubaram suas ovelhas\u201d, acrescenta no document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade tamb\u00e9m se espalhou a cren\u00e7a de que&nbsp;<strong>ela havia sido &#8220;enfeiti\u00e7ada&#8221;&nbsp;<\/strong>em uma&nbsp;<em>Tesguinada<\/em>, festa celebrada pelos Tarahumara, \u00e0s vezes em torno do trabalho, como o plantio, em que bebem uma bebida inebriante \u00e0 base de milho conhecida como tesguino.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desse suposto &#8220;feiti\u00e7o&#8221;, Rita teve problemas para se comunicar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;A\u00ed eu falei para o meu marido: &#8216;Acho que a Rita est\u00e1 boba. Ela j\u00e1 n\u00e3o fala bem, como falava naquela \u00e9poca em que \u00e9ramos novos.&#8217; Ela come\u00e7ou a falar sozinha. Isso n\u00e3o cura ningu\u00e9m, \u00e9 assim que se morre como um doido&#8221;, comenta Soledad Mancinas, esposa do primo de Proc\u00f3pio, no filme.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que Rita come\u00e7ou a vagar com seu filho. E sua comunidade come\u00e7ou a ficar com medo. Os vizinhos dizem que ela j\u00e1 n\u00e3o era mais bem recebida em quase nenhum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tinha gente que n\u00e3o queria ela por perto, quando ela chegava logo fechavam a porta. A\u00ed alguns passaram a dizer que ela queria mat\u00e1-los. Mas n\u00e3o era nada disso, ela estava com fome, queria comida&#8221;, diz Proc\u00f3pio Mancinas .<\/p>\n\n\n\n<p>Esteinou teoriza que, na realidade, Rita poderia ter sido uma pessoa com alguma defici\u00eancia que n\u00e3o era compreendida por aqueles ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Como consequ\u00eancia de tudo o que diziam sobre ela, o cineasta conta que as autoridades tomaram o filho dela, que tamb\u00e9m aparece no document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que ela saiu do&nbsp;<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>&nbsp;e como chegou at\u00e9 o Kansas \u00e9 um mist\u00e9rio, afirma Esteinou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se trata de algo dif\u00edcil de adivinhar, acrescentando, sobretudo ao analisar a realidade que ela vivia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A liberta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O tribunal inicialmente ordenou que a mulher fosse internada no Hospital Psiqui\u00e1trico Estadual de Larned, tamb\u00e9m no Kansas, por tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado de sa\u00fade dela seria novamente avaliado ao final desse per\u00edodo, assim como sua perman\u00eancia nos&nbsp;<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Mas o defensor p\u00fablico respons\u00e1vel pelo caso nunca compareceu perante os ju\u00edzes. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o teria conseguido se comunicar com ela por falta de tradutores.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a equipe m\u00e9dica alegou desconhecer a origem da paciente, o que representava um grande problema no contato com qualquer familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os meses passaram e se transformaram em anos.&nbsp;Anos em que Rita n\u00e3o conseguia falar, sozinha, longe da sua cultura, da sua terra e sendo medicada sem diagn\u00f3stico espec\u00edfico devido \u00e0s barreiras lingu\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela se tornou mais uma&#8221;, diz Esteinou.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Foi a tempestade perfeita. Vejo muitas formas de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia no caso da Rita. Muitos elementos se juntam. Ela \u00e9 uma mulher ind\u00edgena que fala uma l\u00edngua completamente invis\u00edvel, que \u00e9 pobre, migrante e provavelmente com alguma defici\u00eancia&#8221;, diz o diretor.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2-g1.glbimg.com\/4eHNKx609XpIZqXoyrsWvQaJdjA%3D\/0x0%3A800x422\/984x0\/smart\/filters%3Astrip_icc%28%29\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/P\/K\/zNWmzATFSg1jm1ETMIAA\/mexicana-bbc-2.png?w=800&#038;ssl=1\" alt=\"Quando foi libertada, Rita voltou a morar na Serra Tarahumara com uma sobrinha e sua fam\u00edlia. \u2014 Foto: Piano Produ\u00e7\u00f5es via BBC\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando foi libertada, Rita voltou a morar na Serra Tarahumara com uma sobrinha e sua fam\u00edlia. \u2014 Foto: Piano Produ\u00e7\u00f5es via BBC<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 dez anos depois \u00e9 que a sua situa\u00e7\u00e3o teve uma reviravolta e foi descoberta a extens\u00e3o das falhas institucionais relacionadas com a sua hospitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o Servi\u00e7os de Defesa e Prote\u00e7\u00e3o do Kansas, hoje conhecida como Centro de Direitos das Pessoas com Defici\u00eancia do Kansas, decidiu em 1994 revisar os casos de pacientes que estavam hospitalizados havia mais de cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rita, a entidade designou a advogada Toria Mroz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma das primeiras coisas que fizemos foi consultar seus registros m\u00e9dicos. Logo no in\u00edcio da documenta\u00e7\u00e3o, havia uma refer\u00eancia ao fato de que&nbsp;ela havia indicado que era de Chihuahua e que era ind\u00edgena Tarahumara&#8221;, Mroz diz no document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Isso esteve em seu prontu\u00e1rio m\u00e9dico praticamente durante todo o tempo em que ela esteve l\u00e1. Mesmo assim, 10 anos se passaram e ela ainda estava l\u00e1. Eles ficavam dizendo: &#8216;n\u00e3o sabemos de onde ela \u00e9 ou que idioma ela fala'&#8221;, diz a advogada.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, tamb\u00e9m houve evid\u00eancias de que funcion\u00e1rios dos consulados mexicanos em Salt Lake City, Utah e Kansas foram informados da presen\u00e7a de Rita no hospital por uma assistente social, mas&nbsp;nunca tomaram qualquer medida para retir\u00e1-la do hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe de advogados da organiza\u00e7\u00e3o processou o hospital e mais de 30 pessoas que faziam parte de seu quadro de funcion\u00e1rios.\u00a0<strong>Eles pediram US$ 10 milh\u00f5es (cerca de R$ 53 milh\u00f5es) por danos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O processo legal se tornou um desafio, especialmente porque Rita n\u00e3o p\u00f4de prestar depoimento no tribunal e porque nos&nbsp;<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a>&nbsp;s\u00f3 havia um psiquiatra capaz de compreender Tarahumara, diz Esteinou.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher recebeu alta e voltou ao&nbsp;<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>&nbsp;em 1995.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o caso se estendeu de 1996 a 2001 e acabou sendo resolvido por meio de um acordo de indeniza\u00e7\u00e3o muito inferior ao valor original solicitado pelos advogados.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo o que ela viveu nesses 12 anos, a mulher receberia US$ 90 mil (cerca de R$ 476 mil), mas disso teria de destinar a quantia de US$ 32.641 (cerca de R$ 170 mil) \u00e0 ONG que a ajudou e a seus advogados.<\/p>\n\n\n\n<p>O resto do dinheiro, que deveria ajudar Rita a regressar ao seu pa\u00eds de origem, tem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Morando nas montanhas e perdendo dinheiro<\/h2>\n\n\n\n<p>Rita olha para o horizonte sentada numa colina. Seu cabelo \u00e9 todo branco, sua pele enrugada. Na frente s\u00f3 h\u00e1 montanhas e ao redor tudo \u00e9 mato.<\/p>\n\n\n\n<p>Esteinou retrata o contraste com o hospital em seu filme. A mulher, finalmente livre, com voz pr\u00f3pria e na l\u00edngua Rar\u00e1muri, \u00e9 ouvida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como voc\u00ea se sente, Rita?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Me sinto bem, n\u00e3o fiquei doente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 feliz em morar nas montanhas?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Estou muito feliz por estar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 triste?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Me sinto muito bem em conviver com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor come\u00e7ou a filmar em 2016, mas o filme s\u00f3 foi conclu\u00eddo em 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo conheceu Rita e sua sobrinha, Juanita, que cuidou dela.<\/p>\n\n\n\n<p>E embora se sentisse confort\u00e1vel na sua terra natal, Esteinou testemunhou como, depois do Kansas, Rita teve de viver uma vida na pobreza, apesar da indeniza\u00e7\u00e3o determinada pela justi\u00e7a americana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2-g1.glbimg.com\/np8r6d4J3cFHnr_OZFMOCJPEK-A%3D\/0x0%3A800x422\/984x0\/smart\/filters%3Astrip_icc%28%29\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/q\/v\/ukRYDRSESa55FKX8wSkw\/mexicana-bbc-3.png?w=800&#038;ssl=1\" alt=\"Retornando \u00e0s montanhas Tarahumara, Rita vivia na pobreza. \u2014 Foto: Piano Produ\u00e7\u00f5es via BBC\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Retornando \u00e0s montanhas Tarahumara, Rita vivia na pobreza. \u2014 Foto: Piano Produ\u00e7\u00f5es via BBC<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O tribunal criou uma conta e nomeou uma freira chamada Beatriz Zapata, escolhida pela organiza\u00e7\u00e3o, como administradora dos bens de Rita. Durante cerca de dois anos, come\u00e7aram a entregar cerca de 300 d\u00f3lares por m\u00eas e depois 6 mil d\u00f3lares num \u00fanico pagamento. Mas a\u00ed a freira desapareceu com o dinheiro&#8221;, diz o cineasta.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de v\u00e1rios anos, o tribunal convocou a freira, porque ela havia parado de relatar os desembolsos a Rita. Foi descoberto que a maior parte do dinheiro j\u00e1 havia sido gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>E embora um juiz tenha ordenado que ela devolvesse o dobro do que usou, a freira entregou apenas US$ 10 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram nomeados dois novos administradores, que recebiam US$ 1.000 todos os anos pela gest\u00e3o da conta de Rita. Ambos alegaram que n\u00e3o conseguiram descobrir o paradeiro da mulher e, depois de dez anos, o dinheiro acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante sua estada no&nbsp;<a class=\"\" href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>, embora cantasse e dan\u00e7asse, tivesse bom apetite e fosse cuidada com carinho, Rita vivia absorta, muito na pr\u00f3pria cabe\u00e7a, diz Esteinou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela morreu em 2018 e recebeu uma festa de despedida em sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os rar\u00e1muri acreditam que celebrar a morte ajuda o falecido a passar para o pr\u00f3ximo plano de exist\u00eancia, que est\u00e1 em sua origem: as estrelas que iluminam as montanhas da Serra Tarahumara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edcia chegou \u00e0 igreja no dia 8 de junho de 1983. A mulher, com as roupas sujas, os p\u00e9s machucados e confusa, pronunciou algumas palavras que os agentes n\u00e3o conseguiram entender. 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