Trump paga o preço de seus próprios erros
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a…
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As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a derrota republicana na terça-feira superou todas as previsões. Com vantagem de 13 pontos percentuais nas urnas — maior diferença em 50 anos —, os democratas recuperaram o controle da Câmara e do Senado com maiorias expressivas, derrotaram adversários históricos, elegeram governadores onde não venciam havia décadas e pintaram com a cor azul associada ao partido o mapa de estados improváveis, como Texas, Kansas, Iowa ou Mississippi. A razão para tamanha derrota republicana tem nome e sobrenome: Donald Trump.
Perto da metade de seu segundo mandato, Trump mergulhou num abismo de impopularidade e paga o preço de seus próprios erros. Nem os bilhões gastos na campanha — só Elon Musk despejou US$ 450 milhões —, nem o redesenho conveniente de distritos eleitorais para favorecer candidatos republicanos, nem a mobilização silenciosa do trumpismo foram suficientes para evitar que o Partido Republicano fosse atropelado. Praticamente todas as disputas tidas como acirradas na Câmara ou no Senado foram vencidas por democratas. Em pelo menos sete estados, eles tiraram republicanos da cadeira de senador, incluindo bastiões como Texas e Kansas, onde a vaga era do partido havia quase um século. Na disputa pela Câmara, mesmo distritos considerados solidamente republicanos há décadas amanheceram azuis.
A principal causa da derrota republicana é, sem dúvida, a economia. Persiste a percepção de alta no custo de vida. Três em cinco eleitores se queixam do custo de alimentação, energia, saúde e combustível — e votaram nos democratas por ampla maioria. A inflação nos 12 meses até setembro foi de 3,7%, ante 2,9% antes de Trump. Desde a eclosão da guerra no Oriente Médio, o barril de petróleo disparou. Em um ano, a gasolina subiu 34% e o aquecimento doméstico 74%. O protecionismo também alimenta a inflação. Dos 65% que veem nas tarifas um dano para a economia, 80% votaram nos democratas. Por fim, a percepção da corrupção associada a Trump e a truculência no combate à imigração ilegal pesaram contra os republicanos.
Na campanha, Trump repetia que os eleitores deveriam encarar o pleito como se seu nome estivesse na cédula. Pois o eleitorado obedeceu e deixou claro seu repúdio. Trump é o responsável por frustrar a promessa de uma guerra rápida no Oriente Médio, pela política protecionista, pelo enriquecimento nebuloso de sua família e associados e pela brutalidade contra imigrantes. Não foi por acaso que a oposição reconquistou o apoio de grupos como hispânicos ou jovens. Mesmo brancos sem formação universitária — reserva tradicional de voto trumpista — desta vez preferiram os democratas.
Se até agora Trump adotou postura imperial ante um Congresso submisso e acuado, daqui para a frente isso deverá mudar. É provável que a oposição tente investigar suspeitas de enriquecimento ilícito, acabar com a guerra no Oriente Médio e reverter cortes em programas sociais. Trump continuará com a máquina estatal, o poder de veto e, a exemplo de outros derrotados no meio do mandato, continuará a governar. Mas sua relação com o Legislativo será ainda mais conflituosa.










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