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Política

Soberania, negacionismo e ‘democracia em xeque’: entenda como Lula usou discurso em tom eleitoral na ONU para rebater Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou na terça-feira a tribuna das Nações Unidos, em Nova York, para fazer uma crítica às ações do governo Donald Trump e uma defesa da soberania de países ao…

Por andre23/09/2026 09:225 visualizações
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O presidente Lula discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da entidade em Nova York — Foto: Angela Weiss/AFP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou na terça-feira a tribuna das Nações Unidos, em Nova York, para fazer uma crítica às ações do governo Donald Trump e uma defesa da soberania de países ao redor do mundo, em especial da América Latina, hoje sob influência direta do poder militar e político dos Estados Unidos. Sem citar o nome do chefe de Estado americano ou mencionar o resgate da Doutrina Monroe, uma obsessão do líder republicano para ampliar o domínio pela força, Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Em discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, o petista também tratou do declínio do órgão como fórum de diálogo e resolução de conflitos armados, e advogou pelos princípios multilaterais. Em campanha eleitoral, o petista, contudo, não deixou de tratar de assuntos internos. Ao fim de sua fala, disse a uma plateia de governantes que os brasileiros decidiram em outubro se escolheriam a “democracia” ou o “negacionismo”, este último lado representado, na sua visão, pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).

Relação instável

Lula vivenciou em seu terceiro mandato a pior crise diplomática da História entre as duas nações, com ameaças e concretização de sanções, além de idas e vindas na taxação de produtos brasileiros, hoje no patamar de 37,5% para uma série de bens. A proximidade de Trump e a família Bolsonaro também acrescentou outro fator de instabilidade no relacionamento.

Durante o discurso, Lula reconheceu que, para os países da América Latina e Caribe, “a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável”. Mas argumentou que a autonomia política das nações deveria prevalecer.

— O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais — afirmou.

Desde janeiro, quando o ditador venezuelano Nicolás Maduro foi capturado pelas Forças Armadas americanas, o Itamaraty e Lula veem um risco crescente de que outras intervenções na região possam ocorrer à revelia do Direito Internacional.

Neste contexto, a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas aumentou a desconfiança. O receio é que investidas militares possam ocorrem sem a ciência ou autorização dos países vizinhos.

— Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas — disse Lula.

Ao tratar do assunto, Lula citou ainda a promulgação da Lei Antifacção, ocorrida em março, com dispositivos que endurecem as penas para criminosos.

Em um momento em que a indústria de semicondutores, impulsionada pelo desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), demanda a exploração cada vez maior das chamadas “terras raras”, Lula disse que o país exigirá contrapartida. O Brasil tem a segunda maior reserva desse tipo de minerais no mundo, só atrás da China.

— Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.

Lula voltou a defender a regulamentação das big techs e da IA ao citar que seria uma “omissão histórica imperdoável” não enfrentar esse desafio. E usou uma citação do Papa Leão XIV, de que as “as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”. Também criticou as empresas que sabendo dos seus riscos transferem para a famílias o ônus de enfrentarem o algorítimo.

— Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência. Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel Científico sobre IA.

O presidente fez ainda uma defesa do Pix, um dos pontos citados pelos EUA ao aplicar o tarifaço contra o Brasil.

Da tribuna, Lula disse que a “credibilidade” da ONU “nunca esteve tão baixa”, com um Conselho de Segurança que “não cumpre o seu papel” e em meio a uma “crise de lideranças”. O presidente voltou a condenar a guerra promovida pela Rússia contra a Ucrânia e a ofensiva de Israel em Gaza após os atentados terroristas do Hamas, bem como a guerra dos EUA com o Irã. Também foi enfático ao embargo a Cuba e à situação política na Venezuela.

— O povo venezuelano merece decidir o seu próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.

Cartilha eleitoral
A 12 dias da eleição, Lula elogiou a Justiça Eleitoral e o processo de votação brasileiro, e afirmou que “inimigos da democracia”, sejam “internos ou externos”, não irão atentar contra as instituições.

O presidente, porém, sugeriu aos líderes mundiais que a sua vitória seria o único caminho para preservar a democracia.

— No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo.

Ainda sobre assuntos internos, Lula tratou sobre combate a corrupção ao afirmar que sua gestão foi “implacável” em relação ao tema. Repetiu a frase usada durante a campanha, especialmente após o acirramento da crise do Supremo Tribunal Federal, de que “ninguém está acima da lei”. Defendeu a PEC em análise no Congresso para garantir dois dias livres de descanso aos trabalhadores. O presidente ainda afirmou que o Brasil “não vai tolerar” o modelo de negócios das empresas de apostas, as bets, que transformam “o vício em lucro” e cuja “disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares”.

Os últimos discursos antes das eleições
Fernando Henrique (2001)

Em seu único discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU e com o mundo ainda abalado pelos ataques do 11 de setembro, defendeu ações contra o terrorismo e pediu ações de livre comércio para livrar o planeta da pobreza. Cobrou soluções pacíficas para conflitos no Oriente Médio e Angola. Em 2002, o chanceler Celso Lafer discursou.

Lula (2006)

Na disputa pela reeleição, retomou seu primeiro discurso na ONU, em 2003, com foco no combate à fome. Citou o Bolsa Família e o Fome Zero. “Aliamos crescimento e estabilidade econômica a políticas de inclusão social. O nível de vida dos brasileiros melhorou”, disse. Em campanha para eleger Dilma Rousseff, não discursou em 2010.

Dilma Rousseff (2014)

Exaltou conquistas dos governos do PT em 12 anos, ao citar redução de desigualdades, queda no desemprego e aumento de renda. Cobrou maior participação de países emergentes em órgãos como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Criticou ataques aéreos liderados pelos EUA na Síria e intervenções militares.

Michel Temer (2018)

Ao discursar, defendeu a integração entre países e reivindicou uma cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Numa crítica ao governo Dilma, disse que em sua gestão o país voltou a crescer e a gerar empregos. “Programas sociais antes ameaçados pelo descontrole dos gastos puderam ser salvos e ampliados“, afirmou.

Jair Bolsonaro (2022)

Abordou temas conservadores e da campanha eleitoral. Atacou gestões do PT. Disse que não havia corrupção em seu governo e citou escândalos envolvendo Lula. Criticou a Venezuela “de esquerda”, falou de perseguição a católicos na Nicarágua e afirmou que o mesmo ocorreria no Brasil com a vitória de Lula. Repudiou a ideologia de gênero.

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